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SOBRE MEU BLOG
Por que criei o blog? Bem, vamos voltar um pouco no tempo. Há um ano aproximadamente me aposentei após trabalhar como entomologista em uma instituição de pesquisa agropecuária do governo do estado do Paraná, o IAPAR. A partir dessa decisão queria ocupar meu tempo livre, que é muito, mas às vezes parece escasso, com algo que vez ou outra vinha a minha cabeça, mas que nunca tive coragem, ou não chegara o momento certo, para iniciar. Era entre outras coisas a vontade de tocar um instrumento, pintar em tela e escrever. Comecei pela pintura e mais recentemente, no início do segundo semestre desse ano, resolvi trocar o jogo de paciência online pela tentativa de escrever. Já havia tentado no passado, mas fora uma frustração, pois não passava do primeiro parágrafo. O cérebro sempre povoado de grandes idéias, principalmente quando a insônia aparece sem ser convidada, porém, no dia seguinte, a genialidade sumia. Nessa última tentativa, preferi deixar o perfeccionismo que nos impede de construir algo muitas vezes e dei asas à imaginação. Conscientizei-me que escrever poderia ser mais uma terapia, que poderia escrever por mero prazer, sem compromisso de ter que agradar alguém. Felizmente alguns textos agradaram pessoas de diferentes níveis intelectuais, o que me estimulou a abrir o leque para público maior, que eventualmente poderia se interessar por minhas histórias. Neste caso, um blog seria o veículo ideal para tal propósito.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h58
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MEU ENCONTRO COM O REI
O encontro com o rei de futebol realizou um sonho que alimentava desde menino. Naquela época, quando escutava jogo do Santos com radinho de pilha Hitachi jamais imaginaria que isto pudesse algum dia vir a acontecer. Na adolescência, vi parte do sonho realizado assistindo dois jogos do Santos na década de 60, com aquele time memorável, contra o Coritiba, na capital paranaense, sob uma forte chuva e frio, condições que curitibano enfrenta com freqüência, e ainda tive que esperar horas até o jogo começar. O tempo passou, tornei-me adulto e continuei sonhando literalmente que encontrava meu ídolo. No início da década de 90 fui fazer doutorado em Entomologia (ciência que estuda insetos) em Riverside, sul da Califórnia, próximo a LA. Em 1994 realizava-se a Copa do Mundo de Futebol nos Estados Unidos e conseguimos ingressos para assistir o jogo Brasil e o país anfitrião. Saímos na véspera do jogo, bem cedo, com nosso velho Mitsubishi rumo a San José, pela magnífica costa californiana, passando por Santa Bárbara, Solvang, Carmelo. Como ainda era cedo, pois a duração do dia no verão é longa, resolvemos ir até San Francisco para mostrar um pouco da cidade para os filhos e uma amiga, que detestava o Pelé. Ela era PTista, e durante a viagem quando o nome do Pelé veio a tona, criticou-o violentamente. Indagada do por que dessa ira contra o jogador, explicou que havia ouvido declaração do próprio, na qual ele afirmava que se o país continuasse no ritmo que estava, anos 90, ele se candidataria a presidência da república e isso, na opinião dela, poderia tirar a chance de Lula ganhar a eleição. Verdade ou não, essa esdrúxula justificativa ficou marcada em minha mente até hoje, mais de 15 anos depois. Atravessar a Golden Gate dirigindo foi uma sensação impressionante, era a entrada triunfal para algo extraordinário que viria ocorrer pouco depois. Como todo turista, descemos a Lombard Street, uma pequena rua em declive e em zigue-zague toda florida; acho que eram hortências. Ao pararmos para tirar fotos, chamou nossa atenção um táxi conduzindo uma celebridade no banco traseiro, dedução baseada nas filmagens que estavam sendo realizadas de dentro do carro e da rua. Quando o carro estacionou decidi ver quem estava no carro e para surpresa não era outro se não Edson Arantes do Nascimento, Pelé. Emocionado eu disse que vinha sonhando com esse momento toda a minha vida e logo em seguida perguntei se ele poderia dar autógrafo. Assim que liberado pela produção, Pelé deixou o carro, deu autógrafo a todos nós, inclusive para a amiga que o havia criticado na viagem, e pousou conosco para fotos. Parece castigo, mas Vera acabou perdendo o lenço com o autógrafo. Conversamos um pouco sobre a copa e naquela oportunidade ele acertou, pois disse que estava fácil para o Brasil ser campeão, tetra campeão. Depois desse encontro nunca mais sonhei com o rei. O sonho se converteu em realidade. Guardo como uma preciosidade o boné onde está escrito: ao amigo Celso de Pelé.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h48
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AROMA DE CAFÉ
Acordou com o aroma gostoso de café recém coado. Embora quisesse permanecer mais tempo na cama, afinal era sábado, foi atraído para a cozinha, onde Sofia preparava a primeira refeição do dia. Quando Tadeu aproximou-se da mesa e ia se sentar foi repelido imediatamente pela esposa. Para o banheiro, disse, como se Tadeu fosse o filho Diogo, de seis anos. A contra gosto obedeceu à patroa, como ele a chamava quando ela o irritava, e tomou uma ducha rápida, escovou os dentes sem dentifrício, para não alterar o sabor do café, trocou a roupa de baixo, mas voltou a vestir o velho pijama. Ao abrir a porta da cozinha Tadeu recebeu um olhar de recriminação da esposa que disparou: Hoje vai ser um daqueles dias em que você vai ficar o dia inteiro de pijama, bebendo, fumando e assistindo futebol. Hoje é sábado, amor meu, ironizou. Afinal só estamos nós dois em casa. O Diogo está no sítio com os avós. Me sinto bem assim, respondeu. Preciso relaxar e me recompor, pois a semana foi muito estressante na firma. Tadeu pegou sua caneca favorita, que ganhara do filho no dia dos pais, encheu-a de café e dirigiu-se para a varanda nos fundos da casa, onde a esposa preparara a mesa. Nessas ocasiões Tadeu bebia café puro, forte, como só a esposa sabia preparar. Combinação perfeita da temperatura da água e quantidade de pó. Sentou-se, sorveu o café esfumaçante com gosto, e quando ia acender o primeiro cigarro do dia ouviu de Sofia: Enquanto eu estiver tomando café, não. Tenha a santa paciência. Não sei por que você ainda continua com esse maldito hábito. Sabe que faz mal para a sua saúde e para daqueles a sua volta e ainda assim continua soltando fumaça como uma chaminé. Já reparou que tem uma tosse crônica. Se ainda não tiver enfisema pulmonar logo, logo vai ter. Espero que o governo crie uma lei em breve proibindo fumar também nas residências. Quando Sofia invocava com algo não parava de falar. Tadeu pensou: deveria ter ficado na cama. A patroa deve estar com TPM. Às vezes parece que tem várias TPMs por mês, tamanha a sua irritação. Nessas ocasiões até com o Storm, nosso cão labrador, ela implica. Enquanto Tadeu bebia café folheava o jornal, correndo os olhos apenas pelas manchetes e se algo lhe interessasse mais tarde voltava à notícia. De repente uma foto chamou sua atenção na página policial. O rosto era familiar, um pouco maltratado, possivelmente por não ter dormido ou por não ter tido tempo para dar-se um trato antes da foto na delegacia. Embora o personagem da foto parecesse conhecido não conseguia lembrar quem era. Tadeu então chamou a esposa e mostrou-lhe a foto. Quem sabe ela reconhecesse. A expressão estampada na face de Sofia não deixava dúvidas que ela conhecia a figura estampada no jornal, talvez mais do que isso: o Fé-de-ri-co, disse a esposa assustada, como não querendo acreditar no que via. Quem é Federico? perguntou Tadeu curioso. Quando acabou de pronunciar o nome, sem esforço a imagem do dentista da família veio de imediato a sua mente. Pelo estado do doutor na foto, realmente era difícil reconhecer. Diferente daquela figura toda de branco, gentil e perfumada do consultório. A fisionomia assustada de Sofia despertou a atenção de Tadeu que decidiu ler a notícia na íntegra. Segundo o relato do repórter policial o famoso cirurgião dentista Dr. Cláudio Arruda, casado, pai de três filhos, havia sido flagrado pelo marido de uma de suas pacientes fazendo sexo numa sala anexa ao consultório. Tadeu releu o primeiro parágrafo da nota em voz alta para que sua esposa pudesse ouvir e notou que ela demonstrava grande inquietação. E dirigiu-se a mulher: parece que essa notícia deixou você preocupada. Você está pálida. A esposa explodiu: eu só fiquei chocada pela notícia. O Dr. Cláudio sempre foi respeitoso e gentil conosco. Eu estou duvidando desta história. Talvez tenha alguém querendo desmoralizar o doutor. Tadeu, curioso e buscando obter mais informações que pudessem justificar as alterações no humor de Sofia continuou a ler, enfatizando o parágrafo onde o repórter mencionava que outras mulheres estariam supostamente envolvidas com o dentista. Outras mulheres supostamente estariam também freqüentando o anexo do consultório do Dr. Cláudio, repetiu Tadeu. Nesse momento uma série de pensamentos desordenados veio a sua mente. Estaria Sofia envolvida nesse escândalo? Não estaria ela indo ao consultório do dentista com muita freqüência e sempre no início da noite, embora ela tivesse o dia inteiro disponível, pois não trabalhava fora? E, apesar das visitas ao consultório a conta era irrelevante. E as constantes negativas para fazer sexo também não era indício que o dentista estava satisfazendo as necessidades da mulher, perguntou-se Tadeu. Quanto mais pensava mais aumentava a desconfiança de que sua esposa o estava traindo com o doutor. Tadeu pegou o jornal que deixara sobre a mesa junto ao café que esfriara. Acendeu o cigarro, deu algumas baforadas profundas – desta vez Sofia não o recriminou por fumar à mesa - e pretendeu ler algo que não estava escrito no jornal, uma tentativa de certificar-se se sua mulher estivera ou não fazendo sexo com o doutor Cláudio: segundo informações do delegado, o dentista após ter sido interrogado acabou revelando o nome de outra mulher que mantinha relacionamento carnal com ele. Trata-se de Sofia Neves de Souza ... Esse filha da puta de doutorzinho de merda falou que eu era a mulher de sua vida, que me amava e que pretendia divorciar-se para casar comigo. Quando Sofia acabou de falar deu-se conta que havia confessado seu envolvimento com o dentista. Sofia arrancou o jornal das mãos de Tadeu e começou a ler a reportagem. Quando terminou, voltou a ler, pois não encontrara nenhuma menção ao seu nome na matéria jornalística. Certificou-se então que Tadeu plantara uma armadilha e que ela caíra de forma ingênua. Furiosa, atirou um vidro de compota de morango na direção de Tadeu. Este, apanhado de surpresa, não conseguiu esquivar-se e o vidro atingiu em cheio o seu rosto, fazendo com que Tadeu perdesse o equilíbrio e caisse batendo a cabeça na quina da mureta de granito com um estrondo. Sofia saiu correndo para o interior da casa tão desesperada por ter se metido em tamanha enrascada com o dentista que nem tomou conhecimento do estrago que fizera na face do marido, nem de que ele se encontrava desmaiado e sangrando muito na região onde batera a cabeça. Tadeu foi encontrado por Storm que, ao ouvir o estrondo, entrou latindo na varanda e tentou reanimar o dono lambendo seu rosto. Como o corpo não se movia Storm dirigiu-se ao andar superior da casa e ficou latindo e arranhando a porta do quarto do casal. Irritada com o cachorro Sofia abriu a porta e mandou o cachorro ir embora, mas este não a obedecia e descia e subia a escada latindo como querendo mostrar-lhe algo. Finalmente Sofia decidiu seguir o cão e ao chegar à varanda deu grito assustada. Tentou reanimar o marido em meio à poça de sangue que só fazia aumentar. Gritou pelo seu nome, mas ele continuava imóvel. Sofia ficou desesperada se perguntando se houvera matado o marido. Enquanto isso o cão bebia o sangue do piso e do rosto de seu dono até esposa colocá-lo para fora da casa. O que fazer. O marido vivo ou morto lhe causaria problemas. Se sobrevivesse, toda sua família e amigos ficariam sabendo do seu envolvimento com o dentista, seria considerada uma puta e todos se solidarizariam com o marido, inclusive o filho, que ficaria sob a guarda do pai. Se o marido morresse iria responder por homicídio, pois como explicar o incidente, estando Tadeu com a face toda desfigurada. Enquanto Sofia pensava em que atitude tomar, mais e mais sangue jorrava da cabeça de Tadeu que ia se tornando cada vez mais pálido. Finalmente Sofia teve um lampejo de bom senso e resolveu ligar para a emergência, quando chegasse talvez ela conseguisse uma justificativa convincente para explicar o ocorrido, pensou ela. O socorro demorou para chegar, e quando os paramédicos entraram na casa, que tinha a porta entreaberta, a encontraram vazia e com aroma de café. Vendo o estado da vítima chamaram imediatamente a polícia. O enterro de ambos ocorreu no mesmo dia e na mesma sepultura da família. Muito se investigou, muito se especulou, muitas versões foram criadas e algumas até se aproximaram do que realmente tinha ocorrido, mas nenhuma delas conseguiu explicar qual motivo levou Sofia a matar o marido e depois suicidar-se no banheiro.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h45
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O MAR COMO TESTEMUNHA
Pedro encontrou Maria José quando caminhava a beira mar, brincando com a espuma que vez ou outra atingia seus pés. O sol acabara de nascer tingindo o céu de cores vivas de róseo, lilás, laranja e vermelho e refletia no mar desde o horizonte até onde as ondas quebravam na areia. Aos poucos o sol já ia aparecendo em sua plenitude e os tons do amanhecer ficavam mais tênues, coadjuvantes do astro rei que os ofuscava, porém, permitia que o anil do céu contracenasse nesse cenário em que as forças da natureza entravam em harmonia. A praia estava praticamente deserta, via-se apenas uma ou outra silhueta caminhando na distância e uma delas vinha em direção de Pedro. À medida que a distância ia diminuindo começavam a se definir formas femininas no que era anteriormente apenas um vulto. Ela se aproximou, trazia no semblante um sorriso e um brilho nos olhos. Inebriado pela beleza do espetáculo que a natureza proporciona aqueles que madrugam, Pedro não pode resistir de compartilhar com esta solitária criatura as emoções e sensações que esta manhã os estava brindando. Algumas palavras fluíram de sua boca: para esse cenário ficar perfeito, só faltava você. Para a alegria de Pedro a jovem parou e respondeu: Não é maravilhoso? Só de poder desfrutar de tudo isso já vale a pena viver. Ela também era uma romântica, pensou. Caminharam juntos, em silêncio, ouvindo apenas o ruído das ondas fortes. Uma brisa vinda do mar agitava os cabelos e causava arrepios nos jovens. De repente ambos pararam e permaneceram apreciando o vai e vem das ondas, e sem premeditar estavam de mãos dadas, frente a frente, olhos nos olhos, e sem pressa se beijaram tendo o céu, o sol e o mar como testemunhas. Foi um longo beijo salgado, mas que deixou um doce sabor de cumplicidade. Sem dizer mais nada cada qual seguiu o seu caminho, em sentido oposto, sem olhar para trás. Porém, à noite, voltaram a se encontrar sob o olhar invejoso da lua e de milhões de estrelas solitárias, com o mar cobrindo seus corpos unidos a cada onda que morria na praia.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h42
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A TRISTEZA DA VIRGEM
Nossa Senhora está triste, disse-me a caixa – que chamarei de Dolores – de uma grande rede de supermercados enquanto passava minhas compras no sensor eletrônico e eu ia colocando o suco de uva, o café sem cafeína e umas cervejas nas sacolas plásticas. Sem nada entender, fiquei olhando para a moça – que aparentava ser normal a primeira vista – que repetiu a mesma frase: Nossa Senhora está triste. Nossa Senhora está triste, repeti, esperando alguma explicação. Ela não tinha pressa, apesar da fila. Eu senti naquele momento que ela queria compartilhar comigo algo importante que a estava preocupando. Após alguns instantes de silêncio e de repetir que Nossa Senhora estava triste mais uma vez, contou-me que em sua casa havia uma estátua de Nossa Senhora, trazida por seu pai há alguns anos atrás de Aparecida do Norte. Um dia, segundo ela, quando estava reunida com seu irmão e cunhada na sala de estar, onde se encontrava a estátua, verificaram alteração no semblante da Virgem Maria, que se tornara triste. Dolores perguntou-me: por que será que Nossa Senhora ficara triste? Eu não sabia se levava a história a sério ou na gozação, mas sentindo a urgência da moça por uma explicação sugeri que talvez isso fosse um aviso de que algo desgostara a Virgem ou prenúncio de alguma desgraça que estava por vir. Com ar preocupado ela me contou que, numa noite, após o jantar, enquanto a família se reuniu para rezar o terço, ela preferiu ir ao cinema com uma amiga. Para por lenha na fogueira eu disse: então deve ser esse o motivo. Nossa Senhora ficou triste com você por ter preterido a companhia dela por um filme. Arrependi-me de ter dito aquilo, pois a moça mudou de expressão no mesmo momento. Os olhos pareciam querer saltar das órbitas, o rosto tornou-se lívido e os lábios tremiam. Vendo o estado de Dolores, procurei acalmá-la dizendo: estou brincando e que o fato de ter deixado de rezar uma vez não era motivo suficiente para que Nossa Senhora ficasse triste com ela. Afinal fora só uma vez, não é verdade?, perguntei. Você acredita mesmo que não foi por isso então que a Virgem Maria ficou triste? Sim, claro que acredito. Essa mudança deve ter ocorrido por algum outro motivo, disse eu. Logo que Dolores passou o cartão de crédito na máquina e eu estava para sair ela me contou que havia levado um padre para presenciar a mudança na expressão da estátua, mas que este se mostrou incrédulo. Em seguida disse: se você quiser pode ir lá em casa para ver com seus próprios olhos. Despedi-me e fui caminhando e pensando: eta mundo maluco, quando ouvi Dolores repetir: Nossa Senhora está triste. Olhei para trás imaginando que ela ainda falava comigo, mas não, agora ela atendia uma senhora idosa e tudo indicava que a conversa iria mais longe do que a nossa. E mais, provavelmente o convite para visitar a estátua seria aceito.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h37
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POLÍCIA OU LADRÃO?
Lá está Peninha, dez anos de idade, jogando futebol descalço, correndo atrás da velha bola de couro remendado, tentando não pisar na bosta. O desafio não era somente o time adversário, mas também as vacas, por isso Peninha tinha que estar atento, um olho marcando o jogador adversário e o outro a vaca, que não tirava os olhos dele. O menino morria de medo de vacas e de cachorros que perambulavam pelas ruas. Peninha ficava orgulhoso quando lhe chamavam para compor a equipe e, ao vestir a camisa do time, sentia-se como estivesse envergando a canarinha para defender a seleção em algum país da Europa com nome esquisito. As camisas eram feitas de saco de estopa tingido de verde e iam desbotando pela água e pelo sol e a cada jogo estavam mais claras. Jogava de zagueiro, não porque tivesse características para jogar na defesa, pelo contrário, era baixo e franzino. Jogava na zaga porque era mais fácil desarmar do que criar algo. Isso podia ser justificado pelo seu comportamento fora das canchas. Era um menino medroso e por isso deixava os outros tomarem a iniciativa, não só dentro das quatro linhas, mas na escola, nas brincadeiras com primos e amigos. Se fosse brincar de polícia e ladrão optava sempre por ser polícia. Eram anos difíceis aqueles. Sem conhecer o pai, comendo pirão com peixe todos os dias, peixe esse que era salgado e deixado ao sol para secar e assim poder ser conservado. Geladeira e fogão a gás eram luxo no início dos anos 60. A família de Peninha morava em um beco onde as casas não tinham água corrente e o banheiro era uma latrina coletiva. Os pais de família não existiam, eram as mães com seus filhos menores semi-nus, sujos e barrigudinhos que viviam ali. Não era raro as crianças fazerem suas necessidades no meio da viela que o porco, do seu Max, proprietário do local, comia. Os homens que circulavam pelo beco eram marinheiros e malandros que se infiltravam na calada da noite em busca de sexo. Eram comuns as brigas durante a madrugada por eventual encontro de parceiros disputando à mesma rapariga e que acabavam eventualmente com tiros e o choro de crianças. Como a cadeia era próxima, eventualmente aparecia um policial para prender alguém e era aquele alvoroço, pois todos os moradores saiam de suas casas, curiosos, para saber quem estava envolvido. E no dia seguinte a notícia corria e à medida que passava de boca em boca aumentava, tomava diferentes versões. Havia um personagem que frequentemente estava em meio as confusões no beco da Rua Joca Brandão. Era o Formiga, uma personalidade que a maioria das pessoas do bairro conhecia e até admirava e que era hóspede freqüente da cadeia municipal. Sóbrio, não incomodava ninguém, gostava de jogar conversa fiada pelas ruas, mas quando exagerava no consumo da bebida, o que era comum, metia-se em confusão, principalmente por desrespeitar autoridades e por se envolver com mulheres de amigos. Peninha tinha medo de passar pela cadeia quando ia à escola ou jogar bola, pois os presos ficavam com seus braços para fora das janelas importunando as pessoas que passavam na rua, principalmente o Formiga. A vida de Peninha tinha uma rotina. De manhã ia à escola e após o almoço saía com a cesta de pastéis de banana que sua mãe preparava para ele vender nas ruas. O menino era conhecido em boa parte da cidade pela forma como anunciava o seu produto: olha a banana doce. Não era raro Peninha, ao passar por algum campinho de futebol, deixar a cesta de lado e juntar-se aos moleques para bater bola. Somente quando começava a escurecer é que o pequeno vendedor de pastéis de banana lembrava que havia ainda pastéis na cesta. Sabia que ao chegar a casa os vizinhos ouviriam novamente os gritos da mãe destratando o filho e os gritos desesperados do menino que apanhava sem dó e iria dormir de barriga vazia. Sem dispor meios que lhe possibilitassem futuro melhor Peninha teria que depender de alguma habilidade inata e de muita perseverança para tornar-se alguém e sair daquele gueto. E foi o talento com a bola que lhe propiciou uma saída honrada do beco. Aos quatorze anos Peninha já era outro garoto, destacava-se em estatura e parecia mais confiante na zaga. Num sábado, jogando bola com os amigos em um terreno baldio, chamou a atenção de Idésio, centro-avante e ídolo do Marcílio Dias, que morava ao lado do campo improvisado. No dia seguinte Idésio levou o jovem para teste nas categorias de base do time. O treinador gostou do que viu e convidou Peninha para ingressar no elenco. Como a mãe de Peninha era radicalmente contra, principalmente porque não poderia prescindir do trabalho do filho vendendo banana doce, o clube ofereceu uma ajuda de custo e Dona Izaura acabou concordando. Aquela noite Peninha não conseguia dormir tal a euforia. Olhava a foto de Bellini levantando a taça Jules Rimet, após o Brasil derrotar a Suécia por cinco a dois no mundial de1958, e imaginava um dia estar no lugar do capitão. O tempo passou, Peninha tornou-se titular do time principal do Marcílio Dias por alguns anos, consagrando-se bi-campeão estadual. Como sempre acontece, não demorou para ser transferido para equipe do eixo Rio-São Paulo: o Vasco da Gama. Depois de alguns anos no futebol carioca, já casado e com um casal de filhos, foi vendido para o América de Cali, onde sofreu ruptura do ligamento cruzado do joelho direito durante o primeiro ano de contrato. Nunca mais voltou a jogar da forma que o consagrara como zagueiro, que o levara a ser cotado para compor a seleção brasileira que disputaria as eliminatórias da Copa do Mundo. Peninha acabou voltando ao Brasil onde encerrou a carreira jogando em times menores, vindo posteriormente morar em sua cidade natal. A curta carreira esportiva não foi suficiente para que Peninha conseguisse independência financeira. À medida que os dias passavam o dinheiro e os bens que acumulara, e não eram muitos, iam sendo diluídos para pagar os gastos com a família, agora bem maiores do que eram em sua infância longínqua. Peixe frito e pirão de farinha de mandioca nunca fizeram e nunca viriam a fazer parte do cardápio de seus filhos. Peninha percebeu que teria que encontrar uma saída rápida, caso contrário poderia retornar a viver como na infância. Não queria que seus filhos viessem a passar o que ele havia passado. Imaginou seus filhos barrigudinhos, pés descalços e vendendo pastel de banana pela cidade e isso lhe causou um mal estar no estômago. Uma manhã de sábado, enquanto tomava cerveja com velhos amigos, comentou sobre sua situação. Um dos amigos, que era vereador, sugeriu a Peninha que se candidatasse a um cargo no legislativo. Segundo ele, o ex-jogador ainda tinha prestígio na cidade por ter sido ídolo do rubro-anil e não teria dificuldades para ser indicado por algum partido, com chances de ser eleito. E se isso se concretizasse, disse o amigo, poderia dar uma mãozinha aos velhos companheiros, afinal de contas todo o político que se preza emprega parentes e amigos. Na Câmara Federal, alheio ao candidato do PV que na tribuna discursa sobre a internacionalização da Amazônia, Peninha se deixa viajar ao passado. A bola agora era apenas uma vaga lembrança em sua mente, assim como a fome e as brincadeiras no beco da Joca Brandão. Ri ao lembrar que naquela época, na brincadeira de polícia e ladrão ele era sempre polícia. O tempo passou e o destino mudou sua vida. Tornou-se ladrão respeitado, se elegera deputado. Deputado Federal.
Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h08
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