Celso Hohmann


SOBRE MEU BLOG

Por que criei o blog?

Bem, vamos voltar um pouco no tempo. Há um ano aproximadamente me aposentei após trabalhar como entomologista em uma instituição de pesquisa agropecuária do governo do estado do Paraná, o IAPAR. A partir dessa decisão queria ocupar meu tempo livre, que é muito, mas às vezes parece escasso, com algo que vez ou outra vinha a minha cabeça, mas que nunca tive coragem, ou não chegara o momento certo, para iniciar. Era entre outras coisas a vontade de tocar um instrumento, pintar em tela e escrever. Comecei pela pintura e mais recentemente, no início do segundo semestre desse ano, resolvi trocar o jogo de paciência online pela tentativa de escrever. Já havia tentado no passado, mas fora uma frustração, pois não passava do primeiro parágrafo. O cérebro sempre povoado de grandes idéias, principalmente quando a insônia aparece sem ser convidada, porém, no dia seguinte, a genialidade sumia.

Nessa última tentativa, preferi deixar o perfeccionismo que nos impede de construir algo muitas vezes e dei asas à imaginação. Conscientizei-me que escrever poderia ser mais uma terapia, que poderia escrever por mero prazer, sem compromisso de ter que agradar alguém. Felizmente alguns textos agradaram pessoas de diferentes níveis intelectuais, o que me estimulou a abrir o leque para público maior, que eventualmente poderia se interessar por minhas histórias. Neste caso, um blog seria o veículo ideal para tal propósito.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h58
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MEU ENCONTRO COM O REI

O encontro com o rei de futebol realizou um sonho que alimentava desde menino. Naquela época, quando escutava jogo do Santos com radinho de pilha Hitachi jamais imaginaria que isto pudesse algum dia vir a acontecer.

 

Na adolescência, vi parte do sonho realizado assistindo dois jogos do Santos na década de 60, com aquele time memorável, contra o Coritiba, na capital paranaense, sob uma forte chuva e frio, condições que curitibano enfrenta com freqüência, e ainda tive que esperar horas até o jogo começar.

 

O tempo passou, tornei-me adulto e continuei sonhando literalmente que encontrava meu ídolo. No início da década de 90 fui fazer doutorado em Entomologia (ciência que estuda insetos) em Riverside, sul da Califórnia, próximo a LA.

 

Em 1994 realizava-se a Copa do Mundo de Futebol nos Estados Unidos e conseguimos ingressos para assistir o jogo Brasil e o país anfitrião. Saímos na véspera do jogo, bem cedo, com nosso velho Mitsubishi rumo a San José, pela magnífica costa californiana, passando por Santa Bárbara, Solvang, Carmelo. Como ainda era cedo, pois a duração do dia no verão é longa, resolvemos ir até San Francisco para mostrar um pouco da cidade para os filhos e uma amiga, que detestava o Pelé. Ela era PTista, e durante a viagem quando o nome do Pelé veio a tona, criticou-o violentamente. Indagada do por que dessa ira contra o jogador, explicou que havia ouvido declaração do próprio, na qual ele afirmava que se o país continuasse no ritmo que estava, anos 90, ele se candidataria a presidência da república e isso, na opinião dela, poderia tirar a chance de Lula ganhar a eleição. Verdade ou não, essa esdrúxula justificativa ficou marcada em minha mente até hoje, mais de 15 anos depois.

 

Atravessar a Golden Gate dirigindo foi uma sensação impressionante, era a entrada triunfal para algo extraordinário que viria ocorrer pouco depois. Como todo turista, descemos a Lombard Street, uma pequena rua em declive e em zigue-zague toda florida; acho que eram hortências.

 

Ao pararmos para tirar fotos, chamou nossa atenção um táxi conduzindo uma celebridade no banco traseiro, dedução baseada nas filmagens que estavam sendo realizadas de dentro do carro e da rua. Quando o carro estacionou decidi ver quem estava no carro e para surpresa não era outro se não Edson Arantes do Nascimento, Pelé. Emocionado eu disse que vinha sonhando com esse momento toda a minha vida e logo em seguida perguntei se ele poderia dar autógrafo.

 

Assim que liberado pela produção, Pelé deixou o carro, deu autógrafo a todos nós, inclusive para a amiga que o havia criticado na viagem, e pousou conosco para fotos. Parece castigo, mas Vera acabou perdendo o lenço com o autógrafo. Conversamos um pouco sobre a copa e naquela oportunidade ele acertou, pois disse que estava fácil para o Brasil ser campeão, tetra campeão.

 

Depois desse encontro nunca mais sonhei com o rei. O sonho se converteu em realidade. Guardo como uma preciosidade o boné onde está escrito: ao amigo Celso de Pelé.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h48
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AROMA DE CAFÉ

Acordou com o aroma gostoso de café recém coado. Embora quisesse permanecer mais tempo na cama, afinal era sábado, foi atraído para a cozinha, onde Sofia preparava a primeira refeição do dia. Quando Tadeu aproximou-se da mesa e ia se sentar foi repelido imediatamente pela esposa.

 

Para o banheiro, disse, como se Tadeu fosse o filho Diogo, de seis anos.

 

 A contra gosto obedeceu à patroa, como ele a chamava quando ela o irritava, e tomou uma ducha rápida, escovou os dentes sem dentifrício, para não alterar o sabor do café, trocou a roupa de baixo, mas voltou a vestir o velho pijama.

 

Ao abrir a porta da cozinha Tadeu recebeu um olhar de recriminação da esposa que disparou: Hoje vai ser um daqueles dias em que você vai ficar o dia inteiro de pijama, bebendo, fumando e assistindo futebol.

 

Hoje é sábado, amor meu, ironizou. Afinal só estamos nós dois em casa. O Diogo está no sítio com os avós. Me sinto bem assim, respondeu. Preciso relaxar e me recompor, pois a semana foi muito estressante na firma.

 

Tadeu pegou sua caneca favorita, que ganhara do filho no dia dos pais, encheu-a de café e dirigiu-se para a varanda nos fundos da casa, onde a esposa preparara a mesa. Nessas ocasiões Tadeu bebia café puro, forte, como só a esposa sabia preparar. Combinação perfeita da temperatura da água e quantidade de pó. Sentou-se, sorveu o café esfumaçante com gosto, e quando ia acender o primeiro cigarro do dia ouviu de Sofia:

 

Enquanto eu estiver tomando café, não. Tenha a santa paciência. Não sei por que você ainda continua com esse maldito hábito. Sabe que faz mal para a sua saúde e para daqueles a sua volta e ainda assim continua soltando fumaça como uma chaminé. Já reparou que tem uma tosse crônica. Se ainda não tiver enfisema pulmonar logo, logo vai ter. Espero que o governo crie uma lei em breve proibindo fumar também nas residências.

 

Quando Sofia invocava com algo não parava de falar. Tadeu pensou: deveria ter ficado na cama. A patroa deve estar com TPM. Às vezes parece que tem várias TPMs por mês, tamanha a sua irritação. Nessas ocasiões até com o Storm, nosso cão labrador, ela implica.

 

Enquanto Tadeu bebia café folheava o jornal, correndo os olhos apenas pelas manchetes e se algo lhe interessasse mais tarde voltava à notícia. De repente uma foto chamou sua atenção na página policial. O rosto era familiar, um pouco maltratado, possivelmente por não ter dormido ou por não ter tido tempo para dar-se um trato antes da foto na delegacia. Embora o personagem da foto parecesse conhecido não conseguia lembrar quem era. Tadeu então chamou a esposa e mostrou-lhe a foto. Quem sabe ela reconhecesse. A expressão estampada na face de Sofia não deixava dúvidas que ela conhecia a figura estampada no jornal, talvez mais do que isso: o Fé-de-ri-co, disse a esposa assustada, como não querendo acreditar no que via.

 

Quem é Federico? perguntou Tadeu curioso. Quando acabou de pronunciar o nome, sem esforço a imagem do dentista da família veio de imediato a sua mente. Pelo estado do doutor na foto, realmente era difícil reconhecer. Diferente daquela figura toda de branco, gentil e perfumada do consultório.

 

A fisionomia assustada de Sofia despertou a atenção de Tadeu que decidiu ler a notícia na íntegra. Segundo o relato do repórter policial o famoso cirurgião dentista Dr. Cláudio Arruda, casado, pai de três filhos, havia sido flagrado pelo marido de uma de suas pacientes fazendo sexo numa sala anexa ao consultório.

 

Tadeu releu o primeiro parágrafo da nota em voz alta para que sua esposa pudesse ouvir e notou que ela demonstrava grande inquietação. E dirigiu-se a mulher: parece que essa notícia deixou você preocupada. Você está pálida.

 

A esposa explodiu: eu só fiquei chocada pela notícia. O Dr. Cláudio sempre foi respeitoso e gentil conosco. Eu estou duvidando desta história. Talvez tenha alguém querendo desmoralizar o doutor.

 

Tadeu, curioso e buscando obter mais informações que pudessem justificar as alterações no humor de Sofia continuou a ler, enfatizando o parágrafo onde o repórter mencionava que outras mulheres estariam supostamente envolvidas com o dentista. Outras mulheres supostamente estariam também freqüentando o anexo do consultório do Dr. Cláudio, repetiu Tadeu. Nesse momento uma série de pensamentos desordenados veio a sua mente. Estaria Sofia envolvida nesse escândalo? Não estaria ela indo ao consultório do dentista com muita freqüência e sempre no início da noite, embora ela tivesse o dia inteiro disponível, pois não trabalhava fora? E, apesar das visitas ao consultório a conta era irrelevante. E as constantes negativas para fazer sexo também não era indício que o dentista estava satisfazendo as necessidades da mulher, perguntou-se Tadeu. Quanto mais pensava mais aumentava a desconfiança de que sua esposa o estava traindo com o doutor.

 

Tadeu pegou o jornal que deixara sobre a mesa junto ao café que esfriara. Acendeu o cigarro, deu algumas baforadas profundas – desta vez Sofia não o recriminou por fumar à mesa - e pretendeu ler algo que não estava escrito no jornal, uma tentativa de certificar-se se sua mulher estivera ou não fazendo sexo com o doutor Cláudio: segundo informações do delegado, o dentista após ter sido interrogado acabou revelando o nome de outra mulher que mantinha relacionamento carnal com ele. Trata-se de Sofia Neves de Souza ...

 

Esse filha da puta de doutorzinho de merda falou que eu era a mulher de sua vida, que me amava e que pretendia divorciar-se para casar comigo. Quando Sofia acabou de falar deu-se conta que havia confessado seu envolvimento com o dentista.

 

Sofia arrancou o jornal das mãos de Tadeu e começou a ler a reportagem. Quando terminou, voltou a ler, pois não encontrara nenhuma menção ao seu nome na matéria jornalística. Certificou-se então que Tadeu plantara uma armadilha e que ela caíra de forma ingênua. Furiosa, atirou um vidro de compota de morango na direção de Tadeu. Este, apanhado de surpresa, não conseguiu esquivar-se e o vidro atingiu em cheio o seu rosto, fazendo com que Tadeu perdesse o equilíbrio e caisse batendo a cabeça na quina da mureta de granito com um estrondo.

 

Sofia saiu correndo para o interior da casa tão desesperada por ter se metido em tamanha enrascada com o dentista que nem tomou conhecimento do estrago que fizera na face do marido, nem de que ele se encontrava desmaiado e sangrando muito na região onde batera a cabeça.

 

Tadeu foi encontrado por Storm que, ao ouvir o estrondo, entrou latindo na varanda e tentou reanimar o dono lambendo seu rosto. Como o corpo não se movia Storm dirigiu-se ao andar superior da casa e ficou latindo e arranhando a porta do quarto do casal. Irritada com o cachorro Sofia abriu a porta e mandou o cachorro ir embora, mas este não a obedecia e descia e subia a escada latindo como querendo mostrar-lhe algo. Finalmente Sofia decidiu seguir o cão e ao chegar à varanda deu grito assustada. Tentou reanimar o marido em meio à poça de sangue que só fazia aumentar. Gritou pelo seu nome, mas ele continuava imóvel. Sofia ficou desesperada se perguntando se houvera matado o marido. Enquanto isso o cão bebia o sangue do piso e do rosto de seu dono até esposa colocá-lo para fora da casa.

 

O que fazer. O marido vivo ou morto lhe causaria problemas. Se sobrevivesse, toda sua família e amigos ficariam sabendo do seu envolvimento com o dentista, seria considerada uma puta e todos se solidarizariam com o marido, inclusive o filho, que ficaria sob a guarda do pai. Se o marido morresse iria responder por homicídio, pois como explicar o incidente, estando Tadeu com a face toda desfigurada. Enquanto Sofia pensava em que atitude tomar, mais e mais sangue jorrava da cabeça de Tadeu que ia se tornando cada vez mais pálido. Finalmente Sofia teve um lampejo de bom senso e resolveu ligar para a emergência, quando chegasse talvez ela conseguisse uma justificativa convincente para explicar o ocorrido, pensou ela. O socorro demorou para chegar, e quando os paramédicos entraram na casa, que tinha a porta entreaberta, a encontraram vazia e com aroma de café. Vendo o estado da vítima chamaram imediatamente a polícia.

 

O enterro de ambos ocorreu no mesmo dia e na mesma sepultura da família. Muito se investigou, muito se especulou, muitas versões foram criadas e algumas até se aproximaram do que realmente tinha ocorrido, mas nenhuma delas conseguiu explicar qual motivo levou Sofia a matar o marido e depois suicidar-se no banheiro.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h45
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O MAR COMO TESTEMUNHA

Pedro encontrou Maria José quando caminhava a beira mar, brincando com a espuma que vez ou outra atingia seus pés. O sol acabara de nascer tingindo o céu de cores vivas de róseo, lilás, laranja e vermelho e refletia no mar desde o horizonte até onde as ondas quebravam na areia.

 

Aos poucos o sol já ia aparecendo em sua plenitude e os tons do amanhecer ficavam mais tênues, coadjuvantes do astro rei que os ofuscava, porém, permitia que o anil do céu contracenasse nesse cenário em que as forças da natureza entravam em harmonia.

 

A praia estava praticamente deserta, via-se apenas uma ou outra silhueta caminhando na distância e uma delas vinha em direção de Pedro. À medida que a distância ia diminuindo começavam a se definir formas femininas no que era anteriormente apenas um vulto.

 

Ela se aproximou, trazia no semblante um sorriso e um brilho nos olhos. Inebriado pela beleza do espetáculo que a natureza proporciona aqueles que madrugam, Pedro não pode resistir de compartilhar com esta solitária criatura as emoções e sensações que esta manhã os estava brindando.

 

Algumas palavras fluíram de sua boca: para esse cenário ficar perfeito, só faltava você. Para a alegria de Pedro a jovem parou e respondeu: Não é maravilhoso? Só de poder desfrutar de tudo isso já vale a pena viver.

 

Ela também era uma romântica, pensou.

 

Caminharam juntos, em silêncio, ouvindo apenas o ruído das ondas fortes. Uma brisa vinda do mar agitava os cabelos e causava arrepios nos jovens. De repente ambos pararam e permaneceram apreciando o vai e vem das ondas, e sem premeditar estavam de mãos dadas, frente a frente, olhos nos olhos, e sem pressa se beijaram tendo o céu, o sol e o mar como testemunhas. Foi um longo beijo salgado, mas que deixou um doce sabor de cumplicidade.

 

Sem dizer mais nada cada qual seguiu o seu caminho, em sentido oposto, sem olhar para trás. Porém, à noite, voltaram a se encontrar sob o olhar invejoso da lua e de milhões de estrelas solitárias, com o mar cobrindo seus corpos unidos a cada onda que morria na praia.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h42
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A TRISTEZA DA VIRGEM

Nossa Senhora está triste, disse-me a caixa – que chamarei de Dolores – de uma grande rede de supermercados enquanto passava minhas compras no sensor eletrônico e eu ia colocando o suco de uva, o café sem cafeína e umas cervejas nas sacolas plásticas.

 

Sem nada entender, fiquei olhando para a moça – que aparentava ser normal a primeira vista – que repetiu a mesma frase: Nossa Senhora está triste.

 

Nossa Senhora está triste, repeti, esperando alguma explicação.

 

Ela não tinha pressa, apesar da fila. Eu senti naquele momento que ela queria compartilhar comigo algo importante que a estava preocupando. Após alguns instantes de silêncio e de repetir que Nossa Senhora estava triste mais uma vez, contou-me que em sua casa havia uma estátua de Nossa Senhora, trazida por seu pai há alguns anos atrás de Aparecida do Norte. Um dia, segundo ela, quando estava reunida com seu irmão e cunhada na sala de estar, onde se encontrava a estátua, verificaram alteração no semblante da Virgem Maria, que se tornara triste.

 

Dolores perguntou-me: por que será que Nossa Senhora ficara triste?

 

Eu não sabia se levava a história a sério ou na gozação, mas sentindo a urgência da moça por uma explicação sugeri que talvez isso fosse um aviso de que algo desgostara a Virgem ou prenúncio de alguma desgraça que estava por vir.

 

Com ar preocupado ela me contou que, numa noite, após o jantar, enquanto a família se reuniu para rezar o terço, ela preferiu ir ao cinema com uma amiga.

 

Para por lenha na fogueira eu disse: então deve ser esse o motivo. Nossa Senhora ficou triste com você por ter preterido a companhia dela por um filme.

 

Arrependi-me de ter dito aquilo, pois a moça mudou de expressão no mesmo momento. Os olhos pareciam querer saltar das órbitas, o rosto tornou-se lívido e os lábios tremiam.

 

Vendo o estado de Dolores, procurei acalmá-la dizendo: estou brincando e que o fato de ter deixado de rezar uma vez não era motivo suficiente para que Nossa Senhora ficasse triste com ela. Afinal fora só uma vez, não é verdade?, perguntei.

 

Você acredita mesmo que não foi por isso então que a Virgem Maria ficou triste?

 

Sim, claro que acredito. Essa mudança deve ter ocorrido por algum outro motivo, disse eu.

 

Logo que Dolores passou o cartão de crédito na máquina e eu estava para sair ela me contou que havia levado um padre para presenciar a mudança na expressão da estátua, mas que este se mostrou incrédulo. Em seguida disse: se você quiser pode ir lá em casa para ver com seus próprios olhos.

 

Despedi-me e fui caminhando e pensando: eta mundo maluco, quando ouvi Dolores repetir: Nossa Senhora está triste. Olhei para trás imaginando que ela ainda falava comigo, mas não, agora ela atendia uma senhora idosa e tudo indicava que a conversa iria mais longe do que a nossa. E mais, provavelmente o convite para visitar a estátua seria aceito.

 

 



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h37
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POLÍCIA OU LADRÃO?

Lá está Peninha, dez anos de idade, jogando futebol descalço, correndo atrás da velha bola de couro remendado, tentando não pisar na bosta. O desafio não era somente o time adversário, mas também as vacas, por isso Peninha tinha que estar atento, um olho marcando o jogador adversário e o outro a vaca, que não tirava os olhos dele. O menino morria de medo de vacas e de cachorros que perambulavam pelas ruas.

 

Peninha ficava orgulhoso quando lhe chamavam para compor a equipe e, ao vestir a camisa do time, sentia-se como estivesse envergando a canarinha para defender a seleção em algum país da Europa com nome esquisito. As camisas eram feitas de saco de estopa tingido de verde e iam desbotando pela água e pelo sol e a cada jogo estavam mais claras.

 

Jogava de zagueiro, não porque tivesse características para jogar na defesa, pelo contrário, era baixo e franzino. Jogava na zaga porque era mais fácil desarmar do que criar algo. Isso podia ser justificado pelo seu comportamento fora das canchas. Era um menino medroso e por isso deixava os outros tomarem a iniciativa, não só dentro das quatro linhas, mas na escola, nas brincadeiras com primos e amigos. Se fosse brincar de polícia e ladrão optava sempre por ser polícia.

 

Eram anos difíceis aqueles. Sem conhecer o pai, comendo pirão com peixe todos os dias, peixe esse que era salgado e deixado ao sol para secar e assim poder ser conservado. Geladeira e fogão a gás eram luxo no início dos anos 60.

 

 A família de Peninha morava em um beco onde as casas não tinham água corrente e o banheiro era uma latrina coletiva. Os pais de família não existiam, eram as mães com seus filhos menores semi-nus, sujos e barrigudinhos que viviam ali. Não era raro as crianças fazerem suas necessidades no meio da viela que o porco, do seu Max, proprietário do local, comia. 

 

Os homens que circulavam pelo beco eram marinheiros e malandros que se infiltravam na calada da noite em busca de sexo. Eram comuns as brigas durante a madrugada por eventual encontro de parceiros disputando à mesma rapariga e que acabavam eventualmente com tiros e o choro de crianças. Como a cadeia era próxima, eventualmente aparecia um policial para prender alguém e era aquele alvoroço, pois todos os moradores saiam de suas casas, curiosos, para saber quem estava envolvido. E no dia seguinte a notícia corria e à medida que passava de boca em boca aumentava, tomava diferentes versões.

 

Havia um personagem que frequentemente estava em meio as confusões no beco da Rua Joca Brandão. Era o Formiga, uma personalidade que a maioria das pessoas do bairro conhecia e até admirava e que era hóspede freqüente da cadeia municipal. Sóbrio, não incomodava ninguém, gostava de jogar conversa fiada pelas ruas, mas quando exagerava no consumo da bebida, o que era comum, metia-se em confusão, principalmente por desrespeitar autoridades e por se envolver com mulheres de amigos.

 

Peninha tinha medo de passar pela cadeia quando ia à escola ou jogar bola, pois os presos ficavam com seus braços para fora das janelas importunando as pessoas que passavam na rua, principalmente o Formiga.

 

A vida de Peninha tinha uma rotina. De manhã ia à escola e após o almoço saía com a cesta de pastéis de banana que sua mãe preparava para ele vender nas ruas. O menino era conhecido em boa parte da cidade pela forma como anunciava o seu produto: olha a banana doce. Não era raro Peninha, ao passar por algum campinho de futebol, deixar a cesta de lado e juntar-se aos moleques para bater bola. Somente quando começava a escurecer é que o pequeno vendedor de pastéis de banana lembrava que havia ainda pastéis na cesta. Sabia que ao chegar a casa os vizinhos ouviriam novamente os gritos da mãe destratando o filho e os gritos desesperados do menino que apanhava sem dó e iria dormir de barriga vazia.

 

Sem dispor meios que lhe possibilitassem futuro melhor Peninha teria que depender de alguma habilidade inata e de muita perseverança para tornar-se alguém e sair daquele gueto. E foi o talento com a bola que lhe propiciou uma saída honrada do beco. 

 

Aos quatorze anos Peninha já era outro garoto, destacava-se em estatura e parecia mais confiante na zaga. Num sábado, jogando bola com os amigos em um terreno baldio, chamou a atenção de Idésio, centro-avante e ídolo do Marcílio Dias, que morava ao lado do campo improvisado. No dia seguinte Idésio levou o jovem para teste nas categorias de base do time. O treinador gostou do que viu e convidou Peninha para ingressar no elenco.

 

Como a mãe de Peninha era radicalmente contra, principalmente porque não poderia prescindir do trabalho do filho vendendo banana doce, o clube ofereceu uma ajuda de custo e Dona Izaura acabou concordando.

 

Aquela noite Peninha não conseguia dormir tal a euforia. Olhava a foto de Bellini levantando a taça Jules Rimet, após o Brasil derrotar a Suécia por cinco a dois no mundial de1958, e imaginava um dia estar no lugar do capitão.

 

O tempo passou, Peninha tornou-se titular do time principal do Marcílio Dias por alguns anos, consagrando-se bi-campeão estadual. Como sempre acontece, não demorou para ser transferido para equipe do eixo Rio-São Paulo: o Vasco da Gama. Depois de alguns anos no futebol carioca, já casado e com um casal de filhos, foi vendido para o América de Cali, onde sofreu ruptura do ligamento cruzado do joelho direito durante o primeiro ano de contrato. Nunca mais voltou a jogar da forma que o consagrara como zagueiro, que o levara a ser cotado para compor a seleção brasileira que disputaria as eliminatórias da Copa do Mundo.

 

Peninha acabou voltando ao Brasil onde encerrou a carreira jogando em times menores, vindo posteriormente morar em sua cidade natal. A curta carreira esportiva não foi suficiente para que Peninha conseguisse independência financeira. À medida que os dias passavam o dinheiro e os bens que acumulara, e não eram muitos, iam sendo diluídos para pagar os gastos com a família, agora bem maiores do que eram em sua infância longínqua. Peixe frito e pirão de farinha de mandioca nunca fizeram e nunca viriam a fazer parte do cardápio de seus filhos.

 

Peninha percebeu que teria que encontrar uma saída rápida, caso contrário poderia retornar a viver como na infância. Não queria que seus filhos viessem a passar o que ele havia passado. Imaginou seus filhos barrigudinhos, pés descalços e vendendo pastel de banana pela cidade e isso lhe causou um mal estar no estômago.

 

Uma manhã de sábado, enquanto tomava cerveja com velhos amigos, comentou sobre sua situação. Um dos amigos, que era vereador, sugeriu a Peninha que se candidatasse a um cargo no legislativo. Segundo ele, o ex-jogador ainda tinha prestígio na cidade por ter sido ídolo do rubro-anil e não teria dificuldades para ser indicado por algum partido, com chances de ser eleito. E se isso se concretizasse, disse o amigo, poderia dar uma mãozinha aos velhos companheiros, afinal de contas todo o político que se preza emprega parentes e amigos.

 

Na Câmara Federal, alheio ao candidato do PV que na tribuna discursa sobre a internacionalização da Amazônia, Peninha se deixa viajar ao passado. A bola agora era apenas uma vaga lembrança em sua mente, assim como a fome e as brincadeiras no beco da Joca Brandão. Ri ao lembrar que naquela época, na brincadeira de polícia e ladrão ele era sempre polícia. O tempo passou e o destino mudou sua vida. Tornou-se ladrão respeitado, se elegera deputado. Deputado Federal.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 21h08
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MENOR ABANDONADO

Cara suja, nariz escorrendo, descalço e semi-nu lá vai Edenizio, sete anos de idade correndo atrás da mãe, Maria das Dores, vestida com farrapos, olhar perdido no além, sem sonho para acalentar, carregando Gercimar, dois anos e meio de idade no colo e um outro ser  crescendo na barriga que está para estourar a qualquer momento. Mais um ser anônimo para passar fome, carregar vermes na barriga, mendigar ou se for mais ousado, roubar, envolver-se com drogas, acabar na prisão por estupro ou assassinato, ou ambos. Morrer cedo na prisão ou na rua, se tiver sorte. Todo o dia era a mesma rotina, a mãe distribuindo os filhos em pontos estratégicos para mendigar.

Anos depois a mãe de Edenizio morreu, os sete irmãos foram jogados no mundo, já que os vários pais que engravidaram a das Dores, como era chamada na favela, sumiam quando a esposa lhes dava a notícia que estava de barriga novamente. Alguns irmãos viraram meninos de rua onde aprenderam táticas de sobrevivência e marginalidade, que resultaram eventualmente em prisão ou morte; as meninas acabaram vítimas da prostituição para não morrerem de fome. A vida de Edenizio não teve destino diferente. A vivência e a esperteza do moleque nas ruas despertaram interesse do tio, que passou a usá-lo para distribuir foguetinhos para a clientela do bairro.

 Não demorou muito para o pivete ser preso e enviado a FEBEM, onde havia todos os ingredientes para Edenizio se tornar um bandido. Passou por todos os testes de endurance que os jovens passam nas instituições criadas pelo governo para recuperá-los e devolvê-los a sociedade. Apanhou até ter os ossos quebrados, foi estuprado, passou pelas piores humilhações que um ser humano poderia passar. E Edenizio era apenas um menino.

Há certas pessoas que têm uma força que não se sabe de onde vêm, mesmo sendo submetidos a toda a sorte de violência. Edenizio era uma delas. Com o tempo, aprendeu as lições do cárcere e pela sua aparência física logo passou a ser respeitado, principalmente depois que um grupo de jovens delinqüentes, comandado por Jardel tentou, tentou abusar do rapaz. A reação de Edenizio naquele dia surpreendeu o grupo que o atacara e o líder acabou ficando sozinho e ao final os papéis acabaram se invertendo para delírio dos jovens que eram vítimas do Jardel. A força e a astúcia eram as principais armas para sobreviver nessa terra de ninguém, onde os diretores e funcionários sabem o que esta acontecendo e fazem vistas grossas, mesmo que isso implique na destruição física e moral dos menores.  

Edenizio parecia que teria seu destino mudado quando a unidade recebeu visita da assistente social Denize, que estava fazendo mestrado na UNIVASF, em Petrolina, e pretendia desenvolver estudo com os internos. Um dos jovens selecionados era Edenizio. Apesar de todos os jovens apresentarem certa semelhança, fruto do ambiente onde têm vivido, Edenizio era diferente e por isso chamou a atenção de Denize que resolveu fazer com ele trabalho individual.

Numa quarta-feira, no final da tarde, os dois se reuniram na sala de reunião da diretoria.

Sentaram-se frente a frente nos sofás desgastados.  Do primeiro encontro Denize não conseguiu obter muita informação, pois o jovem mostrou-se desconfiado, possivelmente achando que ela estava ali enrustida para repassar as informações, que eventualmente viria a obter, para o diretor.

Nas sessões seguintes não houve mudanças significativas de comportamento, mas com o tempo a assistente veio a adquirir a confiança do rapaz que se mostrou mais receptivo, revelando-se uma pessoa gentil e educada.

Edenizio estava por completar dezoito anos e se bem cuidado se tornaria um jovem atraente. Tinha os cabelos castanhos, pele clara, olhos negros e expressivos, boca maliciosa com lábios carnudos. No rosto angular algumas marcas de agressões sofridas ao longo dos anos e uma cicatriz abaixo do olho esquerdo e que lhe dava certo charme. Seu corpo era musculoso, pois sempre procurava se exercitar para poder sobreviver nesse submundo em que vivia.

Certa tarde, enquanto a assistente social questionava o rapaz, notou que ele não olhava diretamente em seus olhos como costumava fazer e sim em suas pernas cruzadas. Denize geralmente vestia-se com recato, pois era evangélica, mas neste dia como o calor estava muito forte e não havia se quer um ventilador na sala de reuniões, resolveu usar saia e blusa. A saia não era curta, mas ao sentar-se na poltrona e principalmente quando cruzava as pernas, deixava ver parte de suas grossas coxas.

Denize tinha 24 anos, tez clara, cabelos pretos longos, olhos tristes e rosto arredondado. Não usava maquiagem e nem jóias, vestia roupas de cor neutra. A assistente social nunca tiverta namorado, mas isso não queria dizer que, sozinha em seu quarto, não sonhava em botar fogo em suas roupas sem vida, vestir-se como se vestem as colegas da Universidade. Mas havia seu pai, um crente radical, para o qual tudo era proibido, se pudesse vestiria a filha com burca. Também era segredo os sonhos eróticos que ela vinha tendo com o interno da FEBEM durante as últimas semanas e que incendiavam a região baixa de seu ventre. 

Edenizio parecia inquieto e não se concentrava na conversa. Denize ciente do que se passava e relembrando seus sonhos com o jovem perdeu-se e, perturbada pelos pensamentos que povoavam sua cabeça, resolveu levantar e caminhou até a janela. O único som que se ouvia na sala era a respiração ofegante de ambos.

De repente, Denize sentiu duas mãos em seus seios miúdos, quis gritar, mas sua boca foi calada por outra boca que a beijava com volúpia. Sentiu sua boca violada por uma língua voraz, sedenta, que buscava a sua e quando a encontrou seu corpo se acendeu como uma pira e entregou-se, sem resistência a Edenizio. Os gemidos, impossíveis de serem contidos, ultrapassaram as paredes da sala e foram ouvidos por um dos funcionários que passava pelo corredor, que contou ao chefe.

Isolado em sua cela Edenizio chorava como criança, criança que ele já não era. Acabara de completar 18 anos e poderia estar em liberdade condicional e encaminhado a uma instituição aberta que lhe proveria moradia e emprego. O jovem estava inconformado, não por ter perdido sua chance de liberdade, mas por ter sido traído pela única pessoa que confiava no mundo: a assistente social Denize.

A cena em que o diretor da FEBEM entrava pela porta aos berros, empunhando um cacetete e as pancadas em suas costas estavam claras em sua mente, mas não tão claras quanto às palavras ditas por Denize ao diretor: ele estava tentando me estuprar. Se não fosse o bom Deus enviar o senhor aqui .... O diretor pediu que ela se vestisse e que esperasse por ele em seu escritório. Mais tarde ela confirmou o que acontecera, omitido o principal, que ela havia se entregado ao jovem, que não havia posto qualquer resistência e, caso eles não tivessem sido descobertos se tornariam amantes.

Na semana seguinte Denize retornou aos seus encontros com os internos e um dos jovens chamou sua atenção e ela o convidou para um trabalho individualizado que ele acabou aceitando, mas contrariado.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 18h46
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A VISITA DA SOGRA (Parte I)

 

 

 

 

Daniel acabara de chegar exausto em casa após um dia de reuniões com um grupo de executivos da multinacional fabricante de roupas íntimas femininas Intimacy. Essa sexta-feira deveria ter sido muito importante para sua carreira profissional. Como principal responsável pela área de criação da agência, o sucesso ou fracasso das propostas da CLHBR Marketing, com sede em Curitiba, estaria nas mãos de Daniel. Além de participar diretamente na criação da campanha publicitária a ser veiculada pelos meios de comunicação, estava sob sua responsabilidade a apresentação das idéias e convencimento dos contratantes.

 

No início da noite, após calorosas discussões, Daniel acabou se irritando e perdendo a cabeça com as seguidas críticas de um dos diretores da Intimacy ao projeto e isso levou ao fim da reunião. O contrato, que a agência contava como quase certo, envolvendo alguns milhões de reais, não fora fechado e a reunião postergada para a semana seguinte. O projeto de marketing só seria discutido novamente com a condição de que as sugestões de alteração do projeto da Intimacy fossem reconsideradas e a presença de Daniel vetada.

 

Embora alguns colegas tivessem convidado Daniel para irem a algum bar para esfriarem a cabeça, ele declinou do convite explicando que havia assumido compromisso com familiares de sua esposa: os meus sogros iriam jantar em casa, disse ele sem muita convicção; uma mentira para que não ficassem insistindo para que ele os acompanhasse. Daniel até se arrependeu por não ter apresentado outra desculpa, pois só de imaginar a bruaca da sogra jantando em sua casa naquela noite sentia comichões.

 

Daniel queria descansar, estava quebrado, sem ânimo para conversas e muito menos para comemorar noite adentro. O que ele ansiava naquele momento era desfrutar de algum tempo sozinho, esparramar-se no aconchegante sofá da sala de tv de sua casa, localizada em condomínio elegante no Bairro do Champagnat, tomar um whisky duplo e esquecer o dia extenuante. E mais tarde, com a cabeça fria, conversar calmamente com Vivian, sua adorável esposa, sobre o que sucedera na reunião e quem sabe conseguiria consolo. Mas, ela não iria ficar nada satisfeita ao saber que a tão sonhada viagem a Paris com o marido teria que ser adiada, pois o bônus que o marido ganharia com a aprovação do projeto fora perdido. Melhor não revelar a esposa que o não fechamento do contrato tenha ocorrido porque seu maridinho perdera a cabeça durante a reunião. Vivian já estivera na Europa inúmeras vezes, mas queria voltar com o marido, que nunca havia estado em Paris, para visitarem juntos o Museu do Louvre, a Catedral de Notre Dame, Champs-Élysée e a Torre Eiffel, e também para passear de bateau-mouche através do Seine. 

 

Vivian e Daniel se conheceram no teatro Guaíra, no intervalo da apresentação da orquestra de câmara da PUC de Curitiba, que interpretava peças de Bach, entre elas a Pequena Serenata Noturna e o Concerto de Brandeburgo, sob a regência do maestro José Carlos Martins.  Vivian estava com um grupo de amigos e Daniel só, vagando pelo saguão, quando notou que uma jovem a sua frente havia deixado cair o programa da noite. Ao abaixar-se para pegá-lo a jovem fez o mesmo gesto, e nesse momento seus olhos se cruzaram e Daniel sentiu algo que jamais sentira com as inúmeras mulheres que convivera antes e mesmo após conhecer Vivian.

 

A caminho dos assentos a jovem perguntou a Daniel se ele não gostaria de acompanhá-la, ela e os amigos, a um barzinho no Batel. Como não tinha nenhum programa para o final da noite resolveu aceitar. E valeu a pena, pois os dois conversaram sem parar como se fossem velhos conhecidos. Cantaram com o Pedrão do Violão vários clássicos da MPB, inclusive os costumeiros Viola Enluarada e Andança. Voltaram tarde da noite e Daniel a deixou em casa, selando a noite com um beijo rápido nos lábios.

 

Daniel estava muito feliz para pegar no sono, pois a figura de Vivian não lhe saía da mente. Ela era uma mulher bonita e seu sorriso encantava as pessoas. Tinha rosto oval, olhos e boca grandes com lábios carnudos. A pele era de tom acaramelado e seus cabelos loiros, lisos e curtos. Vivian era alta, magra onde deveria ser, mas seus seios e pernas tinham as medidas certas e agradariam a maioria dos homens.

 

Naquela noite no bar, Vivian contou a Daniel que havia se formado em Farmácia pela Federal do Paraná em 2005. Como presente, seu avô ofereceu ajuda financeira para ela montar um laboratório de análises clínicas. O avô Otto adorava a neta e, independentemente da ocasião, lhe presenteava com viagens, jóias e perfumes. O que Vivian queria mesmo era continuar estudando, pretendia ser cientista, por isso aceitou parte do presente do avô e foi fazer mestrado na Friedrich-Alexander-University, na Alemanha. Vivian falava razoavelmente o alemão, pois aprendera desde pequena com os avós maternos que eram alemães e com sua mãe.

 

Da mesma forma, Vivian ficara muito impressionada com Daniel, especialmente pela sua simpatia, cavalheirismo e humor fino, e também por suas características físicas que ela admirava em um homem: alto, moreno claro, cabelos pretos, fronte baixa sob sobrancelhas espessas, olhos pretos, nariz aquilino, boca rasgada com lábios grossos.

 

Ao abrir a porta da casa, Daniel descobriu imediatamente que seus planos de relaxar tinham ido por água a baixo. A primeira coisa – o termo é bem empregado neste caso específico – que viu foi Elga, sua amada sogra, toda empolgada, conversando alto com Vivian e se intrometendo como sempre em algo que ele não pudera compreender em razão de não ter ouvido o início da conversa. Se soubesse que a velha estava em sua casa, pensou Daniel, iria certamente encontrar-se com os amigos ou, teria estacionado o Audi A3 na rua, para não fazer barulho, e entrado pela porta que dá acesso aos fundos de casa e se trancafiado em algum canto até que a sogra sumisse.

 

Elga estava sentada exatamente no lugar em que ele planejava descansar. A velha perua, como sempre, decorada como uma árvore de natal, excesso de maquiagem para tentar disfarçar as rugas, o que não conseguira, cabelos prateados e mantidos armados por litros de spray. Ao ver o genro entrando, levantou-se e caminhou célere ao seu encontro. Daniel realmente não esperava por isso e pensou: justamente hoje, eu não merecia isso.

 

A sogra foi logo dizendo com aquela voz esganiçada de garça no cio: olha quem chegou, meu genro favorito, e sem que Daniel pudesse se desvencilhar envolveu-o num abraço apertado e perfumado. Parecia que a velhota tinha tomado um banho de perfume. Aquele mesmo perfume adocicado de sempre, insuportável, parecido ao que usa uma cinquentona, toda espevitada, que trabalha na agência. Perfume que permanecerá na nossa casa dias após a partida da sogra, pensou ele. Se isso já não bastasse, Elga tascou-lhe um beijo marcando seu rosto com batom vermelho e disse baixinho em seu ouvido: ainda me vingarei por você ter roubado minha preciosa filhinha. Daniel lembrou-se de Judas beijando Jesus e o entregando aos soldados romanos. Ficou com aquela sensação de nojo em sua face durante muito tempo, mesmo após ter lavado o rosto com cuidado várias vezes.

 

Vivian dirigiu a Daniel um olhar de advertência para que ele mantivesse a calma e deixou a sala em direção à cozinha para preparar o jantar. Por mais que ele quisesse aceitar a presença da sogrinha, pelo menos em consideração a Vivian, era impossível, pois o ódio continuava latente. Uma saída temporária seria abrir a garrafa de Jack Daniels, special edition, que Daniel estava guardando para uma ocasião especial, e reforçar na dose. Esta não era uma ocasião especial, muito pelo contrário, era sim uma situação de emergência e por isso nada melhor que o JD. Tomou um longo gole e logo em seguida sentiu um calor gostoso, qual lava de vulcão, esparramando-se internamente pelo seu corpo e aos poucos melhorando seu humor, deixando-o menos tenso e pronto para conviver com a fera, enquanto o efeito do álcool perdurasse. O sabor da bebida lembrou-lhe uma viagem que fez a San Andrés, no Caribe, quando tomou um porre monumental em companhia do velho Jack.

 

Assim que ficaram a sós a bruxa falou com a maior naturalidade, como se tivesse tecendo um elogio a Daniel: sabe querido genro, eu ainda não desisti de meu intento, de tirar minha pobre filha desta casa. A pobrezinha não merece a vida que você está oferecendo a ela.

 

A resposta de Daniel foi imediata: engraçado, eu também não desisti do meu, cortar a sua língua de serpente peçonhenta e dar aos ratos, velha bruxa, e deu uma gargalhada, como se estivesse brincando. Teria que manter o humor para suportar a velha e não estragar o jantar.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 12h14
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A VISITA DA SOGRA (Parte II)

Apesar da boa condição financeira de Daniel, Elga nunca o aceitara como membro da família e foi radicalmente contrária a que se casasse com a filha. Segundo a sogra, Vivian pertencia à elite curitibana e deveria ter como esposo alguém do mesmo nível, um empresário bem sucedido, por exemplo. Um filho de banqueiro, então, seria perfeito.

 

Mesmo sendo oriundos da classe média baixa, os pais de Daniel colocaram a educação dos filhos como prioridade, propiciando ao filho mais velho diploma em marketing pela PUC de Curitiba. Daniel sempre foi pessoa ávida por conhecimentos o que o levara a ler muito e sempre que as condições permitiam freqüentava teatros, além disso, tinha gosto apurado por música. Mas isso não faz diferença para a aristocracia. O que importa na high society é o berço.

 

Daniel era competente em seu trabalho na agência de propaganda e vez por outra apareciam convites de empresas de centros maiores como Rio e São Paulo querendo contratá-lo. Seus patrões compreendiam bem isso e o compensavam com um ótimo salário e bônus extras quando fechavam um bom contrato. Mas, independentemente das ofertas tentadoras, Daniel não pensava em sair de Curitiba por nada. Para ele a cidade proporcionava tudo o que queria: vida cultural intensa, ótima gastronomia,  e parques equiparados com muitas cidades européias e fundamentalmente, uma cidade preocupada com a preservação do meio ambiente.

 

No início, para evitar o casamento da filha com Daniel, Elga assediava a filha com conselhos, promessas de jóias caras, carro novo e viagens ao exterior. Como não surtisse efeito acercou-se de Daniel com pedidos e depois com promessas que envolvia a possibilidade de ajuda financeira para iniciar seu próprio negócio, mas fora radical, teria que ser fora do Paraná. A sogra queria Daniel longe, o mais distante melhor. Com a resposta negativa, partiu então para golpes pouco dignos de uma dama que frequentava chás beneficentes e é era tida como uma católica fervorosa e devota de Sta. Rita de Cássia. Elga desesperada pagou uma vadia para ficar ligando para o celular de Daniel quando ele estava com Vivian, gerando situações constrangedoras para o futuro genro e desconfiança por parte de Vivian. Como não estava surtindo o efeito esperado, Elga, com uma boa recompensa financeira, convenceu a prostituta, com nome de guerra Geisy, a fazer escândalo num restaurante onde o casal jantava numa noite de sábado, que culminou com a acusação de que Daniel havia feito sexo com ela, que era menor.

 

As desconfianças anteriores de Vivian agora se concretizavam e desta forma ela não poderia mais acreditar em seu namorado. Não queria mais vê-lo em sua frente. Sua reação foi levantar-se, com lágrimas escorrendo pelo rosto lívido, misto de vergonha e raiva, e deixar o restaurante. Daniel permaneceu à mesa, estático, sentindo-se o centro de atração, pois todas as pessoas ao seu redor o olhavam com espanto e malícia, sem saber que atitude tomar, até que o maitre Jean, velho conhecido, acompanhou-o até o estacionamento.

 

Após esse episódio, todas as tentativas para reatar a relação com a namorada foram em vão, mesmo após Daniel haver jurado várias vezes que tudo fora armação da mãe de Vivian. Elga mal continha a felicidade pelo rompimento do namoro e ainda aproveitava da situação para aumentar a ira da filha em relação a Daniel: não te avisei que esse seu namorado não é  flor que se cheire, repetia ela.

 

O rompimento com Vivian parecia irreversível até que um dia, conversando em um bar com Ricardo, um amigo de trabalho, Daniel contou-lhe o caso do escândalo envolvendo Geisy. Ricardo tinha um amigo que trabalhava na Polícia Federal e disse acreditar que ele poderia ajudar a esclarecer o caso. O fato de o restaurante não ter câmeras deixou apenas o rastreamento telefônico do celular de Daniel como pista para encontrar a moça e obrigá-la a confessar quem a tinha recebido dinheiro para fazer o serviço sujo. Infelizmente todas as ligações haviam sido feitas de telefone público e isso quase levou a desistência da busca. Contudo, ao rever as ligações constatou-se que as chamadas telefônicas haviam sido feitas de um único telefone, próximo a uma zona de prostituição no centro da cidade. De posse da descrição física de Geisy que Daniel fizera, o policial amigo de Ricardo passou a noite visitando boates e circulando por ruas próximas ao telefone, até que enfim avistou o vulto que parecia estar dentro da descrição de Geisy. O policial federal abordou-a como se estivesse interessado nos serviços da moça e poucos minutos após ambos entravam num hotelzinho barato da Rua Riachuelo. 

 

No quarto pouco iluminado sentiam-se odores de sexo acumulados durante anos de uso. Geisy se aproximou querendo despir o policial. Tinha pressa e aqui vale o velho jargão: time is money. O policial afastou-a e fez com que ela se sentasse na cama. Puxou uma velha cadeira, meio bamba, e sentou-se bem a frente da moça. Após algumas ameaças e dinheiro ela acabou confessando e concordando que iria esclarecer tudo e também revelaria a pessoa que contratara seus serviços.

 

A partir desse episódio, Vivian disse à mãe que caso ela continuasse a interferir em seu relacionamento com Daniel iria mudar para o apartamento dele e que seria melhor que ela esquecesse que tinha filha. Assim, a velha não teve alternativa senão concordar com o namoro e o casamento, apesar de deixar estampado em seu rosto sua indignação. Elga conhecia bem a filha e sabia que ela tinha opinião e quando decidia fazer algo se tornava irredutível. Seria melhor deixar a filha casar, mesmo com um joão ninguém, do que ver a família envolvida em escândalo. Para a velha, dos males o menor.  Imaginava ela: já pensou a hora que nossos amigos descobrissem que a filha da Dona Elga estava vivendo com um homem sem terem se casado? Deus me livre. Adeus chás beneficentes, bingos, convites para jantar, vida pública.  Mal sabia a velha que sua filhinha já passara muitas horas na cama de Daniel. Horas memoráveis, aliás, para ambos.

 

Com a saída de Vivian para a cozinha, com uma boa dose de cinismo Daniel perguntou à sogra a que deviam à visita inesperada. A resposta fez com que Daniel empalidecesse. Ele fez internamente um exame de consciência para lembrar se havia cometido algum pecado muito grave no passado para merecer a sogrinha aqui na sua casa para ficar indefinidamente. Até que eu fui um menino mais ou menos comportado, nunca atirei pedra em passarinho, não coloquei querosene no rabo do gato e não dei sapato sujo para meu irmãozinho chupar, pensava ele. Portanto, a visita de Elga não tinha nada a haver com seus pecados. Não era vingança divina, mesmo porque, com exceção dos últimos anos, Daniel fora frequentador assíduo da Igreja, um católico fervoroso, que até confessava e comungava com regularidade.

 

Quando a velha falou que pretendia ficar morando em sua casa, por tempo indeterminado, o genro ficou arrepiado como gato angorá assustado. Com o susto, Daniel engasgou de tal maneira com a bebida que pensou que iria morrer antes de consumar um de seus objetivos.

 

Minutos depois Vivian chamou Daniel e à medida que ele se dirigia à cozinha imaginava sobre o que ela iria conversar. Daniel pensou: tenho que me mostrar intransigente, irredutível. A velhota ficar um final de semana, ou alguns dias mais seria suportável, com bastante sacrifício é lógico. Agora, ficar morando com eles por tempo indeterminado, intrometendo-se em tudo e principalmente tendo como objetivo maior planejar uma forma de desestabilizar o casamento deles e fazer com que a filha retornasse à casa paterna, não, isso seria inaceitável.

 

Ao entrar na cozinha Vivian envolveu Daniel em seus braços e deu-lhe um longo beijo, deixando na boca do marido um sabor de ervas finas. O jovem sabia que a situação também incomodava Vivian e que ela estava consciente do seu aborrecimento e preocupada com a perda de privacidade tendo sua mãe em casa.

 

Amor, disse ela com doçura em sua voz, a partir de amanhã vamos pensar em uma forma de fazer com que mamãe retorne à casa dela. Conversarei também com papai para saber realmente o que houve entre eles. Não acredito em tudo o que mamãe disse a respeito de papai estar se engraçando com a Marilza, secretária que começou a trabalhar na casa deles há poucas semanas. É bem verdade que a menina é jovem, 19 aninhos apenas, tem belos atributos e certo charme, apesar da simplicidade, ar de moleque e provocador, que para mamãe se traduz em uma única palavra: senvergonhice. Mas insinuar que papai está batendo asas para o lado da moça é um disparate. Ele pode até ficar de olho em seus seios quando ela se abaixa para colocar a mesa ou em suas nádegas quando se inclina para pegar algo no chão. Ou eventualmente dar uma beliscadinha aqui outra ali, mas não passaria disso. A safadinha até que se diverte vendo papai babando por ela. Mas papai mal consegue caminhar sozinho e se fosse para a cama com a sirigaita certamente não sobreviveria, pois seria muita comida para seu banquete e acabaria tendo um enfarte durante o aperitivo.

 

Olha, disse Daniel com ironia, um belo traseiro faz milagres e, além disso, seu pai, quando mais moço, sempre gostou de dar suas escapadinhas. E foi através de você mesma que eu fiquei sabendo. Talvez não se lembre, pois quando me contou estava um pouco alegrinha devido ao vinho que tomávamos naquele mesmo bar onde nos conhecemos. Lembra, querida? Vivian simplesmente se fez de desentendida. Daniel prosseguiu com sorriso irônico: seu pai sempre teve queda por domésticas e contam as más línguas que deixou um par de filhos bastardos, cujas mães ele sustentava.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 12h14
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A VISITA DA SOGRA (Parte III)

Você sabe que isso é fofoca, conversa de quem não tem o que fazer, disse Vivian irritada. Não nego que papai tenha pulado a cerca no passado, mas isso mamãe perdoou ou fez de conta, para manter o casamento e evitar escândalo. Vamos deixar de lado ironias e diz que diz e vamos retornar a nossa conversa sobre a estada de mamãe aqui. Por favor, querido, pelo menos por esta noite, tenha um pouco mais de paciência com ela. Eu concordo em muitos pontos com você, que ela fala sem parar e não dá chance para os outros conversarem, que dá palpite em tudo, que implica muito com você etc., etc. e tal. Mas, afinal de contas é minha mãe e esta também é minha casa, ou não? A ênfase no final desta última frase deixou Daniel um pouco irritado, mas o que o irritou mais foi o fato de estarem iniciando uma discussão por causa da megera da mãe de Vivian. O caos começava a ser instalado no lar do jovem casal. Aquele jantar gostoso, à luz de vela, música romântica e vinho, e depois quem sabe uma noite de romance, estava fadado a ir por água a baixo. Jantar festivo em homenagem a minha querida maldita sogrinha, pena que não tenhamos veneno de rato em casa, pensou Daniel.

 

Vivian soltou Dani – era assim que ela tratava o marido – de seus braços abruptamente e se afastou irritada para o fogão, de onde vinha um aroma delicioso de assado e de outras iguarias que ela estava preparando para o jantar. Vivian, além de outras prendas cozinhava muito bem e era muito caprichosa no preparo dos pratos.

 

Daniel pensou: esta noite certamente irei dormir no sofá, pois a discussão continuaria após o jantar, quando estivessem a sós, não totalmente, já que Vina, uma cadelinha basset estaria presente. O nome da cadelinha derivou do formato de salsicha (vina para os curitibanos) que ela tinha, e foi encontrada por Daniel abandonada no Parque Barigui, onde ele corria nos finais de semana.

 

Na noite da visita da sogra, Vina estava quietinha em sua cama na área de serviço. Parecia amedrontada. De vez em quando dirigia um olhar assustado e inquisidor como indagando: o que essa criatura esquisita viera fazer nessa casa novamente. Vina sabia que Elga não gostava dela, pois em uma de suas visitas à casa da filha, não estando ninguém por perto, tentou arrancar os bigodes do animalzinho à unha. A pobre cadelinha saiu em disparada para a área de serviço e lá permaneceu até que a indesejável visita partisse. Quando indagada sobre que ocorrera com a cachorrinha, a sogra não negou que fora ela que machucara o animal. O que mais irritou Daniel foi a frieza e a ironia daquela megera quando acrescentou: só machos deveriam ter bigodes e por isso achei que Vina ficaria mais feminina sem eles. Além de outros atributos maléficos a velha maluca apresentou mais um, torturadora de cães. Elga, sabendo da afeição que seu genro tinha por Vina, e não podendo arrancar o seu bigode, resolveu vingar-se no animal indefeso. Sem dúvidas era isso. Daniel ficou imaginando: coitado do Sr. Estefânio, o marido de Elga, o que não tem sofrido nas mãos dessa criatura. Será que a velha também tentou arrancar seus pelos? Como ele nunca teve bigodes o genro ficou a imaginar que pelos a sogra teria puxado.

 

Daniel naquela ocasião perdeu uma vez mais a paciência com a velha bruxa e a aconselhou que deixasse os bigodes de Vina em paz e que se preocupasse com seus próprios. A megera não gostou de ele ter se referido ao seu buço, que não lhe dava tréguas, e quanto mais depilava mais viçoso crescia. Ofendida, a sogra pegou a bolsa e saiu xingando e batendo a porta.

 

Vivian, apesar de não aprovar a atitude da mãe em tentar depilar a pobre da Vina, certamente também não aprovou a reação de Dani em relação a sua mãe. Segundo ela a atitude do marido fora desrespeitosa, já que tocara em assunto relacionado à vaidade feminina e que preocupa toda mulher: pelos crescendo em lugares que não deviam. Dani e Vivian discutiram mais uma vez e como na maioria das ocasiões por algo relacionado à sogrinha, e aquela noite ele dormiu no sofá, em companhia da cachorra, que via em seu dono um aliado contra a velha bruxa. Vina tinha preferência por Daniel, pois quando Vivian não estava por perto ele dava sorvete a ela. Ele se divertia vendo a cachorrinha toda feliz com a boca e o focinho cobertos da massa gelada.

 

Para não estragar mais a noite e para não por perder todo o trabalho de Vivian preparando a comida, Daniel pediu desculpas, esfarrapadas como se diz, deu-lhe um abraço forte e beijou-a suavemente na testa prometendo que se comportaria como um gentleman naquela noite, como genro que adora sua sogrinha. Sóbrio isso não seria possível, só com o reforço de seu companheiro dessa noite, Jack. Que importava a ressaca, a dor de cabeça do dia seguinte, o importante era estar relaxado para ouvir e ver a sogra como se fosse a mais agradável das pessoas.

 

A comida esteve deliciosa, como de costume, Vivian deslumbrante em seu vestido verde esmeralda, com um largo decote, deixando a vista boa parte de seus seios exuberantes e as costas. Daniel adorava beijar aquela pele macia e cheirosa, beijos que causavam arrepios na esposa. No pescoço tinha um ponto de luz em ouro branco com brilhante suspenso por uma corrente em ouro. Nas orelhas delicados brincos também de brilhante. O conjunto foi o presente que Dani lhe deu por ocasião do aniversário de Vivian – 23 anos –três meses atrás, quando completaram dez meses de casamento.

 

Ao acordar Daniel descobriu que não dormira no sofá da sala de visitas. Estava nu, segurando a cabeceira da cama que girava como brinquedos de parques de diversão. A dor de cabeça era infernal assim como o mal estar estomacal. Era sábado e ele prometera jogar futebol com os amigos da agência. Mas como, nem pensar. Certamente eles não iriam também, pois estariam no mesmo estado que ele se encontrava nesta manhã.

 

Com muito esforço Daniel levantou-se e dirigiu-se ao banheiro, apoiando-se nas paredes para não tropeçar, pois tudo em volta dele girava. Ao urinar acabou errando o alvo e molhou o assento do vaso e o chão. Uma coisa que Vivian não tolerava era deixarem pasta de dentes aberta e respingos de urina no assento do vaso sanitário. Abriu a porta do box, a torneira de água fria no volume máximo e enfiou a cara na água gelada. Deu um grito que acordou a esposa. Ela abriu a porta do banheiro assustada perguntado o que acontecera. Nisso um refluxo subiu através de seu esôfago e vomitou ali mesmo, dentro do box. Um tanto decepcionada e enojada Vivian saiu batendo a porta e falando algumas coisas que Dani não entendeu. Mais tarde, quando estivesse sóbrio, saberia.

 

Daniel não conseguia sair do banheiro, permanecendo ali uma boa meia hora vomitando ou tentando vomitar. Parecia que iria morrer. Que seu estômago iria acabar na boca. Gemia, contorcia-se de cólicas. Prometera, uma vez mais, jamais por uma única gota de álcool em sua boca pelo o resto da vida, e naquele momento, parecia que iria cumprir a promessa, pois sentia que estava morrendo.

 

Com o tempo começou a se recuperar e saiu do banheiro, com a toalha de banho enrolada na cintura, em direção a cozinha em busca de uma xícara de café expresso para amenizar a ressaca. Ainda tonto, abriu a porta e o pesadelo voltara. Não, infelizmente não era pesadelo, era a pura realidade. Lá estava ela, da mesma forma que a vira na noite anterior, a sogrinha. Radiante. Só mudara o vestido, que continuava espalhafatoso, vermelho carmim, que não combinava com aquela hora do dia. O cabelo continuava armado. Daniel pensou: será que ela dorme em pé? Assim que ela o avistou, disse sorrindo, um sorriso enrugado de uva passa: pela cara parece que o meu genro favorito não teve uma noite agradável. Não é mesmo, meu filho? Quer que eu prepare um café bem forte para você, assim logo, logo vai estar inteirinho. Com todo o álcool consumido na noite passada seu organismo vai ter um dia difícil, disse a velha com um sorriso sarcástico.

 

Daniel não aguentou. Era too much. A noite mal dormida, a ressaca e aquela múmia viva bem a sua frente debochando dele. Pior, lembrou que a velhota iria ficar morando em sua casa e infernizando sua vida. As palavras saíram da boca de Daniel sem controle: vai preparar café na puta que a pariu, sua velha bruxa. Suma de minha frente ou eu não respondo pelos meus atos.

 

Calma, meu filho, tome o café e acalme-se, replicou ela com riso no canto dos lábios e continuou: você não deveria ter bebido tanto ontem à noite, você tem algum probleminha mal resolvido?, conte aqui para a sogrinha e quem sabe, com toda a experiência que a vida me proporcionou, eu possa ajudá-lo a resolver. Abra o seu coração, filho.

 

Você é o meu probleminha, melhor, um problemão, sua velha maluca, disse-lhe o genro explodindo. Deixe essa casa, desapareça, vá para os quintos dos infernos, talvez o capeta a aceite. Acho que nem ele.

 

Elga não se alterou, deu uma gargalhada sonora que ecoou pela casa e respondeu: não meu querido genro, esta é também a casa de minha filha – até parecia que mãe e filha haviam combinado – e só saio quando quiser ou se Vivian pedir para eu sair, coisa que eu duvido.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 12h11
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A VISITA DA SOGRA (Parte IV)

De repente Daniel segurava uma faca de churrasqueiro. Estava prestes a cometer um crime, seria um sogricida, que em seu modo de ver naquele momento, seria um benefício para a humanidade e certamente o crime seria absolvido após haver explicado as razões ao júri. O juiz certamente aceitaria o motivo como legítima defesa e até poderia condecorar o agressor, o genro. Quem sabe o juiz também não tivesse uma sogrinha dessas a infernizar a vida dele.

 

Na cozinha ouviu-se o grito de Vivian: pare, não, não, largue essa faca seu doido. O que deu em você. Quer tornar-se um assassino, acabar com nossa família.  O que seu esposo queria de fato não era matar a velhota, apenas e tão somente extirpar-lhe a língua e atirá-la para Vina comer, nada mais. Mas a cachorrinha não ousaria devorar a língua felina dessa bruxa depiladora de bigodes de cachorrinhas indefesas.

 

Pela primeira vez, Daniel viu a sogrinha assustada, apavorada. Tremia junto a pia da cozinha e tinha os olhos esbugalhados, como se fossem saltar das órbitas. A respiração rápida impedia que ela pronunciasse qualquer palavra inteligível. O que se ouvia eram sons como grunhidos emitidos por animal ferido.

 

Vivian, ainda em estado de choque por ter presenciado tal cena, cena na qual seu adorado marido supostamente tentara assassinar sua mãe, de forma brutal, tentava acalmar a velha senhora, fazendo-a sentar-se e dando a ela um copo de água que Elga mal conseguia segurar de tanto que tremia. Quando a sogra acalmou-se um pouco e já não soluçava mais Vivian dirigiu-se ao marido, que estava ali parado, um tanto confuso e frustrado por não ter atingido meu intento, e disse de forma enfática: arrume suas coisas e deixe a casa imediatamente. E em seguida acrescentou: nunca me passou pela cabeça que havia casado com um assassino em potencial. Dentro de alguns dias meu advogado entrará em contato com o seu para acertarmos o divórcio. Quanto à tentativa de homicídio vou deixar por conta de mamãe. Infelizmente para você, caso ela resolva prestar queixa à polícia, o que será difícil de convencê-la a não fazer, e você for a júri, eu serei convocada como testemunha e não terei alternativa a não ser testemunhar o que presenciei aqui na cozinha nesta manhã de sábado.

 

Quando Daniel deixava a cozinha deu-se conta que a toalha de banho já não estava mais enrolada no meu corpo e ficou intrigado e perguntou-se se o estado de pânico da velha era resultado da iminência de perder a língua ou por vê-lo assim, com o órgão genital descoberto. Logo em seguida Daniel voltou à realidade e arrependeu-se por estar ironizando a situação. Uma realidade que se tornara ainda pior pelo seu mal estar físico. Não conseguia pensar com clareza. Tinha dúvidas se aquele episódio, onde ele fora o astro principal, era ou não fruto de fantasia, como um filme Hollywoodiano que no final teria um happy end. Ouvindo a conversa de Vivian com a mãe na cozinha ele não teve dúvidas de que o que acabara de acontecer era real e que ele teria que partir, deixar sua jovem esposa a quem amava tanto e era reciprocamente amado até hoje, e ainda corria  risco de ter que enfrentar a justiça.

 

Esse conjunto de fatos deixou Daniel ainda mais enfurecido. Em conclusão, perdera a esposa, teria que procurar algum lugar para morar e fracassara em seu intento de calar a velha indefinidamente. A velha certamente permaneceria na casa, talvez até dormindo em seu lugar na cama de casal durante um bom tempo, alegando estar traumatizada, pensava Daniel. Subiu desnorteado ao quarto do casal, olhou longamente para a cama, onde desfrutaram intermináveis noites de amor, durante tantos meses, ainda em desalinho. Relembrou que no início do relacionamento estavam sedentos de sexo, quando o lado animal prevalecia, mas à medida que o tempo transcorria faziam amor mais calmamente, entremeado de carícias, declarações de amor. Sua vida conjugal, exceto por alguns desentendimentos corriqueiros, especialmente fruto da presença da sogra, vinha sendo maravilhosa até a noite passada. Até já estavam planejando ter uma herdeira e até já haviam escolhido o nome: Miriam seja fosse menina ou Thiago caso fosse menino.

 

Daniel deitou-se por um momento na cama, no lado onde Vivian dormira alguns minutos antes. Ainda estava quente e pode sentir o cheiro gostoso do corpo de sua esposa no lençol de seda e no travesseiro, onde encontrou um fio de cabelo que guardou no bolso da camisa que iria vestir. Jogou na mala algumas roupas para passar alguns dias junto com alguns pertences necessários para higiene e trabalho. Pediria a Vivian para separar o resto, que viria buscar depois. Quem sabe ele conseguiria convencê-la de aceitá-lo de volta. Pegou as chaves do Audi, os documentos e a bolsa com as roupas e desceu as escadas. No caminho Vina veio ao seu encontro, toda contente, abanando o rabinho sem parar, como nada tivesse acontecido. Para ela o mundo estava normal, pois não havia presenciado nada. Mal sabia ela o que acontecera naquela manhã de sábado na cozinha. Mas conhecendo a fera da sogra, Vina certamente daria razão ao seu dono. Ambos odiavam a velha, mas por motivos diferentes.

 

Dani fez um carinho na cachorrinha e deixou a casa, sem ao menos dar adeus para Vivian. Sabe-se lá o que as duas ficaram fazendo na cozinha. Certamente amaldiçoando o marido e o genro. Dani deu partida no carro e dirigiu-se para o Holiday Inn, em Santa Felicidade, bairro conhecido nacionalmente pela deliciosa e variada culinária italiana.

 

Daniel instalou-se num apartamento executivo. Isso lhe bastava no momento, pois o importante era ter um lugar para ficar sozinho, para pensar e decidir o que fazer daqui para frente. Poderia ter ido para hotel de luxo, mas não era disso que ele necessitava, não iria desfrutar de todas as mordomias que o local oferecia aos seus hóspedes naquele momento. Esses hotéis são para ocasiões especiais, para serem desfrutadas com uma companhia agradável, como Vivian, pensou, onde bons pratos e vinhos são degustados e não ingeridos.

 

Daniel despiu-se ficando apenas de cueca, abriu o frigobar e encontrou o que não deveria ter encontrado naquele momento. Bebeu no gargalo da garrafinha mesmo e estirou-se na cama de bruços. Precisava começar a planejar o futuro, onde morar e que atitude tomar se a velha decidisse lhe processar por tentativa de homicídio. Deveria conversar com Matheus, seu companheiro de futebol e advogado, decidiu Daniel

 

Caía uma garoa fina, típica do clima curitibano, e já se ouvia o movimento dos carros pela Avenida Manoel Ribas rumo aos vários restaurantes para o almoço, provavelmente muitos turistas de diferentes partes do Brasil para degustar as delícias da culinária italiana.

 

À medida que o tempo passava mais perturbado e revoltado Daniel ficava. Não conseguia relaxar, não conseguia pensar. Com mais umas garrafinhas, quem sabe, acabaria relaxando e foi o que aconteceu, pois acabou adormecendo, sono curto e perturbado pela imagem da velha bruxa Elga. No sonho, ou melhor, pesadelo, a sogra vestia roupas espalhafatosas de cores berrantes, tinha os cabelos desgrenhados que mudavam de tonalidade, o riso debochado nos lábios murcho e dançava ao seu redor. De repente, a imagem ficou em preto e branco e a sogra agora protagonizava o papel de uma bruxa, semelhante a da história João e Maria. Vez ou outra soltava gargalhadas estridentes, tentando arrancar Vivian dos braços de Daniel que foram cedendo até ver a esposa sendo arrastada para longe. Tanto no sonho como na vida real a velha bruxa conseguira seu intento. Daniel acordou num sobressalto, assustado e suando frio e demorou até que se desse conta que isto fora um pesadelo. Pensou: nem quando estou dormindo me livro da velha maldição.

 

De repente Daniel teve vontade de conversar com Vivian, mas se conteve. Ligou a TV e apareceu uma dupla sertaneja, Victor & Hugo e ele mudou de canal imediatamente. Ele odiava esse tipo de música. O tempo se arrastava e Vivian não saía de seus pensamentos. Conteve-se ao máximo até que num impulso pegou o celular e ligou. O telefone chamava, chamava e parecia que não iriam atender até que sentiu que alguém estava ao fone. Pensou em desligar, pois suas pernas tremiam e a coragem se esvaía. Ouviu uma vez mais o grasnado da sogra. O genro permaneceu com o telefone no ouvido sem saber o que fazer. Por fim, com muito ódio e frustração desligou.

 

Daniel, de volta a cama pensava em voz alta: tenho que encontrar alguma forma de me vingar da velha bruxa, dar uma lição para o resto da vida dela, ou quem sabe ir mais além. Essa velha não faria falta a ninguém. Nem o Sr. Estefânio iria sentir falta dela já que tinha passado maus bocados com a fera durante toda a sua vida. Ele, assim como Daniel, não vinha de família abastada e, portanto, ao entrar na família da esposa teve que se adaptar a duras penas para lidar com ela e com o modo de vida sofisticado dos familiares.

 

Não é conhecimento de muitos, mas o casamento de Elga com Estefânio, dois pólos opostos, só ocorreu porque ela ficou grávida. Elga tinha então dezessete anos e um dia, entrando numa das empresas que seu pai era proprietário conheceu o futuro marido. Nessa ocasião, porque estava chovendo, o pai da jovem, Dr. Otto, pediu para um funcionário subalterno levar a filha até a casa dela. Jamais imaginava o velho que a filhinha, para ele o símbolo da pureza, católica recatada e estudante do Colégio Sacre Coeur de Marie, iria bolinar o rapaz enquanto ele dirigia e, aproveitando-se da situação de filha do chefe, da ingenuidade do rapaz, foram acabar transando no banco detrás de seu Oldsmobile, em uma estradinha rural que levava ao sítio do Dr. Otto, nas cercanias de Curitiba. E desse encontro, desse sexo apressado e mal feito, resultou um zigoto que viria a se tornar Vivian. A princípio o pai envergonhado sugeriu que a filha abortasse e depois viajasse para Bremen, no norte da Alemanha, onde o pai ainda tinha vários parentes. A mãe por ser católica devota não concordou e Elga fora forçada a casar-se com o jovem funcionário do pai.

 

A vida conjugal e social de Estefânio fora o esperado. Elga sempre o menosprezava, mesmo em frente a outras pessoas, mesmo depois que ele conseguiu um diploma em Administração, estudando a noite na Federal do Paraná. Estefânio mostrou-se uma pessoa dedicada e competente e com o tempo, apesar do rancor inicial, Dr. Otto reconheceu seus esforços e deu-lhe um cargo de gerente em uma de suas empresas na cidade industrial de Curitiba.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 11h48
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A VISITA DA SOGRA (Parte V)

Vivian não saía da cabeça de Daniel, estava se tornando uma obsessão. Teria que ligar novamente. Não, melhor esperar, pensou. É bem provável que a velhota asquerosa atenda novamente o telefone. Decidiu esperar mais trinta minutos, tempo que durou uma eternidade. Daniel tremia quando tentava ligar para Vivian e acabou ligando para diferentes números até que enfim, ouviu a voz de sua esposa. Ouviu-a repetir vários alôs, perguntar quem estava ligando, sem que ele tivesse tido coragem de dizer que era seu marido. Por fim identificou-se. O que ouviu acabou de destruir o ex-marido: Como ousa ligar depois do que fez? Você esqueceu que se eu não houvesse chegado na hora você teria matado mamãe?  Saiba que ela não está passando bem. Daniel tentou se justificar, mas o que ficou em seus ouvidos foi o som da ligação cortada. Permaneceu com o telefone na mão sem saber que atitude tomar.

 

Passado um tempo, Daniel tomou uma decisão, voltaria a sua ex-casa e obrigaria Vivian a ouvi-lo. Pessoalmente, pensava ele, seria mais fácil convencer a esposa aceitá-lo novamente como marido, e então permitiria que ele retornasse a casa. Se fosse preciso até pediria desculpas a sua mãe. Faria tudo para ter a ex-esposa de volta.

 

Daniel barbeou-se, tomou uma ducha rápida, pois estava ansioso e vestiu-se com o que tinha de melhor no momento. Não era muito, já que não trouxera quase nada quando deixou a casa pela manhã e, além disso, as roupas estavam amassadas. Pensou em pedir para a camareira passar, mas não tinha paciência para ficar esperando. Eram quatro horas da tarde quando Daniel adentrou ao condomínio onde residia. Quando fez a curva à direita para entrar na rua onde morava viu uma ambulância parada em frente de sua residência. O coração de Daniel disparou, as pernas ficaram bambas tornando difícil dirigir o carro. Chegou com dificuldades ao número 214. Subiu a rampa que dava a porta da casa que se encontrava aberta, com grande tensão, suando frio, imaginando o que pudera haver acontecido.

 

Daniel ficou ali estático, hesitante, se deveria entrar, apertar a campainha ou voltar ao hotel. Num ímpeto de coragem entrou na casa que de repente não parecia mais tão familiar, apesar de ter passado ali os melhores dias de sua vida em companhia de Vivian. Não encontrou ninguém na sala de estar e a casa parecia vazia, mas logo em seguida ouviu vozes no andar de cima e também soluços.  Subiu as escadas com medo do que iria encontrar. Pensou, será que aconteceu algo com Vivian? Teve receio de continuar. Ao aproximar-se do andar de cima reconheceu os soluços de sua ex-esposa. Sentiu um alívio a princípio, mas logo em seguida lhe voltou à mente que algo de sério havia acontecido. Se não era com Vivian só poderia ser com ... ?

 

Daniel caminhou em direção as vozes que vinham do quarto de visitas, o quarto de Elga.  A porta do quarto estava aberta. Daniel teve ímpetos de voltar, descer as escadas entra no carro e sumir. Uma força, no entanto o atraía para o quarto e ele viu-se impelido para seu interior. Ao redor da cama estavam os paramédicos, Sr. Estefânio e Vivian que continuava soluçando baixinho.

 

Vivian tinha lágrimas escorrendo pela face e Daniel teve desejos de consolá-la, de tomá-la seus braços, de beijá-la na boca. Estranho desejo, pensou. Até esse momento Daniel não havia prestado atenção à mãe de Vivian deitada na cama. Apesar de todo o ódio que o genro acumulara desde o tempo que a conhecera, nesse momento ele sentiu uma sensação diferente, pena talvez, pena pelo estado em que a velha se encontrava. Toda aquela prepotência, soberba e vaidade sumiram. Elga estava como uma flor arrancada e deixada no caminho. Um odor de morte pairava no ar.

 

Daniel aproximou-se do Sr. Estefânio, que não demonstrava nenhuma espécie de sentimento, e deu-lhe um abraço sem dizer nada. Pela reação do ex-sogro ele não estava inteirado do que ocorrera naquela manhã de sábado. Em seguida dirigiu-se até onde estava Vivian e tentou dar-lhe um abraço, mas foi repelido de forma brusca. Vivian fez um sinal para que Daniel a acompanhasse à biblioteca, cuja porta foi fechada atrás deles. Vivian, com os olhos vermelhos e lacrimejantes, olhou fixamente para o ex-marido, que mesmo sem a esposa dizer nada, compreendeu que a partir daquele momento não teria mais nenhuma chance de ter essa mulher em seus braços. Após um longo momento de silêncio Vivian falou: você acabou conseguindo o seu intento, bem mais cedo do que imaginava. Mamãe está morta e você deve estar satisfeito, não é mesmo? A partir de hoje você também morreu para mim. Deixe essa casa imediatamente. Daniel sentiu-se paralisado, nada que dissesse neste momento surtiria efeito, só pioraria ainda mais a situação.

 

Daniel deixou o carro estacionado em frente à casa e caminhou sob a garoa fina que caía. Alguns minutos depois, passou por ele a ambulância levando o corpo da sogra para o IML. Após perambular pela noite fria e úmida, exausto, molhado e faminto, chegou ao hotel. Apesar de sua vida conjugal ter sido assim tão repentinamente destroçada, diferentemente do que sentira quando vira a sogra transfigurada na cama há poucos minutos, Daniel começava a sentir certo prazer por a velha ter feito a sua derradeira viagem, para o inferno, disse em voz alta. Agora o demônio é que teria que aturar o fardo. Por toda a eternidade.

 

Após tomar um banho demorado, Daniel vestiu-se e resolveu sair para beber e jantar. Lembrou-se que há muito não fazia isso sozinho. Poderia ligar para algum amigo e convidá-lo para saírem juntos, mas não estava a fim de conversar com ninguém e muito menos de ter que explicar porque estava tão calado e irritado.

 

Daniel pegou as chaves do carro e desceu até o estacionamento do hotel e surpreso não encontrou o carro. Não seria possível que o seu Audi tivesse sido roubado dentro do estacionamento. Demorou algum tempo até que lembrasse que havia deixado o carro em frente à sua casa no condomínio. Por isso, voltou à portaria e pediu que chamassem um táxi que o levou até onde estava o carro. Notou que as luzes da sala da casa estavam acessas e viu um vulto caminhando de um lado para o outro. Parecia o Sr. Estefânio. 

 

Após ter deixado o condomínio, Daniel rodou a esmo pela cidade sem saber aonde iria jantar. Finalmente decidiu ir ao Don Max, restaurante no Bairro da Água Verde, onde ele e Vivian apreciavam tanto a gastronomia variada e de qualidade quanto o aconchego e a bela decoração do local. Saboreou quatro diferentes tipos de sopas, inclusive a sua preferida, a de agrião. Daniel sentiu-se revigorado e desistiu de retornar ao hotel, onde não teria o que fazer. Como acabara de jantar e era cedo para ir a um bar resolveu passar no Shopping Mueller e assistir um filme para fazer o tempo passar. A maioria dos filmes não o interessava, sobrava apenas, Antes do Por do Sol, que ele não tinha a menor idéia do que se tratava, mas como os locais de filmagem eram encantadores resolveu assistir. Poucos minutos após o filme iniciar Daniel lembrou-se de Vivian e assim foi durante todo o tempo que durou a película. Imaginava ele e a ex-esposa nos papéis principais, caminhando por Paris, como ela havia prometido que fariam juntos. Uma dor aguda atravessou o seu peito como a lâmina afiada de uma lança. Lágrimas quentes desceram pelo seu rosto deixando um sabor amargo em sua boca.

 

Daniel sentiu urgência de beber algo caso contrário entraria em depressão. Perto de onde se encontrava havia um bar, Menina dos Olhos D`água, que sempre quisera conhecer. Dizia-se que além de ser um bom boteco, era também um ambiente cultural, com exposições e música. Daniel permaneceu um bom tempo bebendo chopp sozinho e prestando atenção nas pessoas e nos detalhes do ambiente. Quando já estava começando a se aborrecer e pensava em deixar o local e voltar ao hotel, sentou-se à mesa ao lado um grupo de jovens mulheres muito animadas e uma delas, parecia que se encantara por Daniel, pois não tirava os olhos dele. Daniel até desconfiou que pudesse ser uma conhecida sua ou de Vivian. A jovem tinha belos traços, rosto oval, olhos verdes, nariz e boca bem delineados, cabelos curtos e loiros. De repente, veio a sua mente a imagem de Priscilla, companheira de faculdade. Não, não poderia ser ela, estava tão diferente. Outrora era muito tímida, ficava ruborizada com qualquer brincadeira maliciosa, magricelinha e não se preocupava com a aparência. Agora, ali sentada com as amigas, estava exuberante. Muitos jovens e senhores acompanhados sentados em mesas próximas olhavam descaradamente para Priscilla, irritando suas namoradas e esposas. A bela jovem, porém, divertia-se com isso tudo dando gargalhadas e vez ou outra dava um sorriso e uma piscadinha para Daniel. Este, mais descontraído pela bebida, começou a retribuir os olhares, mas precisava de uma bebida um pouco mais forte para esquecer tudo o que passara durante aquele dia para se aproximar da velha companheira da PUC. Chamou o garçom e pediu whisky. Disfarçadamente, Daniel retirou a aliança antes que as jovens o convidassem para se sentar à mesa delas. Não demorou muito para ele estar conversando animadamente com Priscilla que revelou que o reconhecera desde o momento em que entrara no bar e que estava curiosa para saber sobre sua vida. Daniel não mentiu, disse que a princípio não a havia reconhecido, já que muitos anos haviam transcorrido desde a época da faculdade. Falou que ela mudara muito, que estava encantadora. Embora Priscilla falasse descontraidamente sobre sua vida pessoal, Daniel buscava subterfúgios para não falar da sua. Já avançava a madrugada, a conversa diminuía e foi consenso que era a hora de partir. Daniel começou a despedir-se, mas quando chegou a vez de Priscilla esta deu lhe um forte abraço, fazendo com que Daniel se sentisse excitado ao sentir os seios firmes da moça contra o seu peito, e um rápido beijo no pescoço sussurrando em seu ouvido: leve-me para casa, meu lindo. Era impossível dizer não. Com o corpo em chamas, talvez mais pelo álcool ingerido, abandonado por Vivian, Daniel deixou-se consumir.

 

Patrícia morava com uma amiga em um prédio no Bigorrilho, bairro contíguo ao Champagnat. Era tarde e sua companheira ainda não havia chegado e provavelmente dormia na casa do namorado. Entraram no apartamento e imediatamente se beijavam loucamente, bocas se devorando, línguas serpentes se entrelaçando, roupas sendo arrancadas com fúria. Sara se mostrou insaciável e deixou Daniel prostrado quando este enfim, conseguiu satisfazê-la. Priscilla ainda dormia quando Daniel deixou o apartamento e, para meu desespero, não encontrou o carro que deixara estacionado em frente ao prédio onde morava Priscilla. Que merda, só me faltava essa, ficar a pé e ter que pegar um táxi para fazer o BO em pleno domingo de manhã após uma noite dessas, pensou Daniel irritado. Passaram-se alguns dias e o carro foi encontrado, todo depenado em Campina Grande do Sul. Felizmente o carro tinha cobertura total o que asseguraria a Daniel um novo veículo, mas para quando pergunta-se ele, sabendo de toda burocracia que incidentes dessa natureza envolvem.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 11h47
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A VISITA DA SOGRA (Final)

As semanas que se sucederam à morte da sogra tornaram-se um verdadeiro tormento para Daniel. Sua vida, num período de 24 horas virou do avesso, do paraíso ao inferno. Sentimentos de culpa povoavam sua cabeça: morte de Elga, perda da mulher, arrependimento por tê-la traído no mesmo dia que sua mãe morrera. Somava-se a isso o fato de ter que morar em um apart hotel, alimentar-se mal, dormir mal, pois a figura da sogra, por vezes acusadora, outras se decompondo na terra fria, ficava a atormentá-lo. Não conseguia se concentrar no trabalho e seu poder criação diminuíra dramaticamente chegando ao ponto de ser advertido pela diretoria e mesmo questionado pela aparência física. A barba sempre por fazer, o cabelo em desalinho e as roupas amassadas. Boa parte do que ocorria com Daniel era fruto das inúmeras negativas de Vivian a sua proposta de reconciliação.

 

O pedido de divórcio e a separação oficial do casal foram a gota que faltava, o golpe final nas esperanças de Daniel de voltar para Vivian. Começou então a beber com frequência e a sair com mulheres, algumas belas e cultas, outras nem tanto, mas invariavelmente a relação terminava repentinamente, pois ao conversar, ao fazer sexo, sempre às comparava com Vivian e assim mulher alguma o satisfazia.

 

 

Uma noite, estava jantando sozinho no restaurante Petit Chateau, em Santa Felicidade, quando avistou em mesa próxima uma face conhecida. A figura feminina conversava animadamente com um homem, jovem ainda, de seus trinta e poucos anos. Pareciam felizes e íntimos já que várias vezes ele a beijou carinhosamente nos lábios. Vivian estava deslumbrante em seu vestido azul turquesa e com as jóias que Daniel a presenteara, as mesmas que ela usara naquela noite em que a sogra os visitara. No dedo anular da mão direita um chuveiro de diamantes, testemunho do compromisso e futuro casamento. Vivian estava diferente, um novo penteado, luzes no cabelo. Se Elga estivesse viva estaria radiante. A filha afinal teria se livrado do traste do esposo e estava agora noiva de alguém de seu círculo de amizades. O noivo estaria dentro dos padrões aceitáveis pela família Huckel.

 

Daniel havia repentinamente perdido a fome, que era o resto que faltava para perder. Vivian conseguira superar a separação e parecia melhor do que nunca. O ex-marido, possivelmente, seria nada mais do que uma vaga lembrança, pensou Daniel. Parecia que naquele momento ele necessitava se sentir menor, um lixo da sociedade. Tudo o que fora na juventude, todo o esforço para garantir uma ascensão digna, conseguir um diploma, uma estabilidade profissional e na vida íntima, nada nesse momento representava mais alguma coisa para Daniel. A vida não tinha mais sentido. Sem Vivian não valia mais a pena viver. Levantou-se, deixou 50 reais na mesa pela bebida e saiu andando até o estacionamento como um autômato. Deu partida no novo Audi e deixou-se levar.

 

Quando Daniel acordou estava na UTI do Hospital das Clínicas. Cheio de tubos e conectado a vários aparelhos. Ao lado da cama viu uma figura nebulosa que não conseguia identificar. Aos poucos sua visão foi clareando até que pode ver claramente que era sua sogra quem estava a sua cabeceira. A velha sorria e apoiava uma de suas mãos gélidas sobre as mãos de Daniel e com a outra desligava os aparelhos, sem que Daniel pudesse gritar por socorro, pois sua voz não saía. Como estava imobilizado pelas fraturas Daniel não conseguia impedir que a velha alcançasse seu intento. A velha bruxa viera do inferno para se vingar e estava conseguindo e Daniel nada podia fazer.

Nos últimos momentos no plano físico, Daniel reviu sua vida como se alguém tivesse apertado a tecla fast forward. Desde sua infância, tudo passava rapidamente pela sua cabeça confusa, até aquela noite que dera partida no novo Audi e saiu sem destino e acabou chegando, sabe Deus como, à estrada da Graciosa. A cerração estava forte, dificultando a visibilidade. Daniel tinha pressa, precisava acelerar, não importava se tinha ou não destino. Lembrou-se da música do Roberto Carlos, A Estrada de Santos, e apertava mais o acelerador pela estrada estreita e sinuosa, escorregadia e quase sem visibilidade. Controlava as curvas com dificuldade até o momento que a lembrança de Vivian, feliz com seu namorado lá no restaurante, veio à sua mente, e logo em seguida, na curva seguinte, perdeu o controle e viu a proteção da estrada no acostamento vindo ao seu encontro.



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 11h46
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DeSeNhOs CoM LáPiS dE CeRa

                 



Escrito por Escrito por Hohmann, C. L. às 18h20
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SOBRE MEU BLOG

Por que criei o blog?

Bem, vamos voltar um pouco no tempo. Há um ano aproximadamente me aposentei após trabalhar como entomologista em uma instituição de pesquisa agropecuária do governo do estado do Paraná, o IAPAR. A partir dessa decisão queria ocupar meu tempo livre, que é muito, mas às vezes parece escasso, com algo que vez ou outra vinha ao cérebro, mas que nunca tive coragem, ou não chegara o momento certo, para iniciar. Era entre outras coisas a vontade de tocar um instrumento, pintar em tela e escrever. Comecei pela pintura e mais recentemente, no início do segundo semestre desse ano, resolvi trocar o jogo de paciência online pela tentativa de escrever. Já havia tentado no passado, mas fora uma frustração, pois não passava do primeiro parágrafo. O cérebro sempre povoado de grandes idéias, principalmente quando a insônia aparece sem ser convidada, porém, no dia seguinte, a genialidade sumia.

Nessa última tentativa, preferi deixar o perfeccionismo que nos impede de construir algo muitas vezes e dei asas à imaginação. Conscientizei-me que escrever poderia ser mais uma terapia, que poderia escrever por mero prazer, sem compromisso de ter que agradar alguém. Felizmente alguns textos agradaram pessoas de diferentes níveis intelectuais, o que me estimulou a abrir o leque para público maior, que eventualmente poderia se interessar por minhas histórias. Neste caso, um blog seria o veículo ideal para tal propósito.

Celso L. Hohmann



Escrito por Hohmann às 12h37
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